

Houve um tempo em que os céus acima do Pantanal eram tão povoados quanto as águas de seus rios. Entre as nuvens flutuavam centenas de gigantescas vitórias-régias que sustentavam aldeias, jardins, templos e as moradas dos antigos deuses da floresta. Dali do alto, sob um sol que jamais era ocultado pelas nuvens e sob uma abóboda celeste pontilhada pelas mais brilhantes estrelas, estendia-se um mundo mágico que coexistia silenciosamente com o dos homens, embora raramente fosse percebido por eles.

Durante incontáveis gerações, aquele universo prosperou alimentado pelas histórias contadas ao redor das fogueiras, pelas lendas transmitidas de pais para filhos e pela memória dos povos que mantinham viva a ligação entre a terra, os rios, os animais e os seres encantados. Enquanto essas histórias continuavam sendo lembradas, as grandes vitórias-régias permaneciam firmes nos céus, sustentando toda uma civilização invisível aos olhos comuns.
Entretanto, os tempos haviam mudado. Os homens passaram a olhar menos para as antigas narrativas e mais para as novidades que surgiam a cada dia. Pouco a pouco, lendas que durante séculos haviam habitado a imaginação de inúmeras gerações começaram a desaparecer da memória coletiva, e aquilo que parecia apenas uma mudança de costumes produzia consequências muito mais profundas do que qualquer mortal poderia imaginar.
Naquela manhã, Tupã observava em silêncio uma pequena vitória-régia que flutuava não muito distante de seu palácio. Havia alguns anos suas folhas exibiam um verde intenso e suas raízes luminosas brilhavam como fios de ouro atravessando as nuvens. Agora, porém, a planta parecia enfraquecer a cada novo amanhecer. Suas cores tornavam-se opacas e a luz que a sustentava vacilava como a chama de uma vela prestes a se extinguir.
Aquilo não era resultado do vento, das chuvas ou da passagem do tempo. A velha vitória-régia estava morrendo porque as histórias que lhe davam vida estavam sendo esquecidas. Cada lembrança perdida retirava um pouco de sua força, e o mesmo fenômeno começava a se repetir em diversos pontos daquele mundo suspenso entre o céu e a terra.
Ao voltar os olhos para o horizonte, Tupã percebeu que já existiam vazios onde antes flutuavam outras ilhas celestes. Algumas haviam desaparecido tão lentamente que quase ninguém notara sua ausência. Outras haviam ruído de forma silenciosa, levando consigo moradas, jardins e memórias que jamais voltariam a existir. Pela primeira vez, o deus compreendeu que o maior perigo para seu povo não vinha das tempestades, das secas ou das queimadas que assolavam o Pantanal, mas do esquecimento que avançava sobre o coração dos homens.

Foi então que uma ideia começou a tomar forma. Se os antigos deuses estavam enfraquecendo porque já não eram lembrados, talvez a solução não estivesse em lutar contra os homens, mas em ensinar uma nova geração a preservar aquilo que estava desaparecendo. Seria necessário encontrar crianças capazes de ouvir a voz da floresta, compreender os ensinamentos dos rios e respeitar a sabedoria dos ancestrais. Crianças que pudessem tornar-se guardiãs da memória, da natureza e das antigas tradições.
Naquele mesmo dia, enquanto observava a pequena vitória-régia que resistia bravamente ao esquecimento, Tupã decidiu convocar os demais deuses e espíritos da mitologia dos povos originários. Havia chegado o momento de agir e, entre as nuvens do Pantanal, começava a nascer uma ideia que mudaria para sempre o destino daquele mundo encantado: a Academia dos Pequenos Pajés.
