
Talvez o futuro da animação feita com Inteligência Artificial não esteja em digitar um prompt e esperar que um filme apareça pronto na tela.
O curta Dear Upstairs Neighbors, dirigido pela ex-artista da Pixar Connie He, aponta justamente para outra direção: a da colaboração entre animadores, designers, pesquisadores e ferramentas generativas utilizadas como extensão do processo criativo, e não como substituição do artista. O filme estreou em festivais em 2026 e rapidamente passou a ser citado como um dos exemplos mais interessantes da chamada animação híbrida.
A história é simples e universal. Ada tenta dormir, mas os ruídos vindos do apartamento acima transformam uma noite comum em uma sucessão de fantasias cada vez mais absurdas e expressionistas. O cotidiano, aos poucos, dissolve-se em imaginação, humor e delírio visual.

O que torna o curta especial, porém, não é apenas sua narrativa, mas a forma como foi produzido.
Em vez de gerar imagens diretamente a partir de comandos de texto, a equipe desenvolveu personagens, storyboards, animações preliminares e pinturas conceituais pelos métodos tradicionais. Somente depois os modelos de IA foram ajustados para aprender aquela estética específica e transformar os desenhos em algo que os próprios criadores descrevem como “pinturas vivas”.
É uma diferença importante.
Durante anos, discutiu-se se a IA substituiria animadores. Obras como Dear Upstairs Neighbors sugerem outra possibilidade: a tecnologia funcionando como um novo pincel, capaz de ampliar estilos visuais que seriam extremamente trabalhosos ou economicamente inviáveis pelos métodos convencionais.
Talvez seja cedo para afirmar que estamos diante de uma revolução comparável à chegada da computação gráfica nos anos 1980. Mas, assim como Tin Toy, da Pixar, permanece historicamente relevante muito além de suas limitações técnicas, filmes como Dear Upstairs Neighbors podem acabar sendo lembrados como um dos primeiros momentos em que a IA deixou de ser uma curiosidade tecnológica e passou a integrar, de fato, o processo artístico da animação.
Making of: como o filme foi produzido
Equipe humana primeiro, IA depois

- Roteiro e direção: Connie He, ex-artista da Pixar e de Inside Out 2.
- Design visual e pinturas conceituais criados manualmente por artistas.
- Animações preliminares desenvolvidas em ferramentas tradicionais.
- Modelos de IA ajustados especificamente para aprender aquele estilo gráfico.
- Processo baseado em vídeo-para-vídeo, preservando movimentos, enquadramentos e tempo cômico definidos pelos animadores.
- Correções localizadas permitiam alterar apenas partes específicas de cada plano, sem recriar a cena inteira.
- Finalização e ampliação para exibição em alta resolução realizadas com ferramentas da Google DeepMind.
Connie He – Roteiro e direção
