
A TV no Brasil começou oficialmente em 18 de setembro de 1950. No Rio Grande do Sul, onde eu morava na época, ela chegou alguns anos depois. Em 1960, meu pai comprou uma televisão Axel, de 19 polegadas. Eu tinha seis anos de idade.
A TV era, naturalmente, em preto e branco. A programação começava por volta das 17 horas e encerrava perto das 23h30. Era uma janela curta de tempo, e a gente assistia de olhos arregalados para não perder nada.
Lembro especialmente das animações de Dom Quixote, com sua musiquinha “Ó querida! Ó querida! Ó querida Clementina…”. Os episódios eram curtinhos e, depois de terminarem, tínhamos de esperar uma semana inteira pelo próximo. Não existia Cartoon Network 24 horas por dia. Era jogo duro.
Mas ainda tínhamos O Vigilante Rodoviário e seu cão Lobo, coisa fina e brasileira, além de Rin Tin Tin, os Patrulheiros Toddy e outras guloseimas da televisão da época. Nas quintas-feiras havia Além da Imaginação. Como podem ver, era pouca coisa, mas de qualidade.
Desculpem esta longa introdução, mas encontrei um documentário sobre a Hanna-Barbera e seu fim que gostaria de compartilhar com vocês. É um trabalho muito interessante sobre o que aconteceu com os criadores de um dos maiores estúdios de animação da televisão.
Foram cerca de quarenta anos de atividade em sua forma original. Seus personagens divertiram a minha infância, a infância dos meus filhos e tenho certeza de que, em algum momento, meu neto também verá uma dessas animações.






O documentário apresenta três grandes momentos da história do estúdio.
A primeira fase foi a da simplificação. A animação era um processo artesanal e uma nova tecnologia surgia para mudar tudo: a televisão. Os novos tempos exigiam rapidez, redução de custos e produção em escala. A Hanna-Barbera respondeu criando técnicas de animação limitada, diminuindo o número de desenhos intermediários, reutilizando movimentos e simplificando cenários. Enquanto os estúdios Disney produziam animações sofisticadas para o cinema, a televisão exigia agilidade.
Na segunda fase vieram as mudanças corporativas e a expansão comercial. O estúdio passou por sucessivas aquisições e reorganizações empresariais. Os personagens tornaram-se marcas valiosas e os desenhos passaram a seguir fórmulas cada vez mais repetidas. O foco deslocava-se gradualmente da criação para a administração de um enorme catálogo de sucessos.
Por fim, chegou a terceira fase. A televisão a cabo, novos canais especializados e o surgimento de técnicas digitais transformaram novamente o mercado. A Cartoon Network passou a investir em uma nova geração de criadores, enquanto tecnologias como a computação gráfica e a animação digital começavam a substituir métodos tradicionais. Mais uma vez, uma nova tecnologia atingia em cheio uma estrutura que havia sido revolucionária décadas antes.
Curiosamente, a mesma televisão que transformou a Hanna-Barbera em um império foi também o primeiro passo das mudanças que acabariam levando ao seu desaparecimento.
Vale muito a pena assistir ao documentário.
