
Da página ao celular, a Coreia transformou não apenas a maneira de ler quadrinhos, mas também a maneira de desenhar, compor e contar uma história.
Na primeira matéria desta série vimos que mangá não é um estilo. A história dos quadrinhos japoneses reúne linguagens visuais muito diferentes, de Hokusai e Tezuka ao gekiga, Lobo Solitário, Akira e às produções contemporâneas.
Agora viajamos alguns quilômetros e chegamos à Coreia. E encontramos outra transformação importante na história recente dos quadrinhos: o desaparecimento da página.
Manhwa não é webtoon
Manhwa (만화) é o termo coreano para quadrinhos. A Coreia possui uma longa tradição de publicações impressas, portanto manhwa e webtoon não são sinônimos.
O webtoon nasceu no ambiente digital coreano e ganhou força a partir dos anos 2000, quando grandes portais passaram a publicar quadrinhos diretamente na internet. Com a popularização dos smartphones, aquele formato encontrou o suporte perfeito: uma tela vertical que carregamos no bolso e percorremos com o dedo. A própria Korea Creative Content Agency considera a rolagem vertical uma das mudanças fundamentais da indústria coreana de quadrinhos.
A diferença parece simples. Mas não é.
A página desaparece
Uma HQ impressa possui um espaço previamente determinado: a página.
O desenhista distribui dentro dela quadros grandes e pequenos, aproxima determinadas imagens, separa outras e conduz o olhar do leitor pela composição. Mesmo antes de ler cada quadro, porém, nossos olhos conseguem
perceber boa parte da página.


Manhwa contemporâneo em edição impressa. Mesmo utilizando cor e desenho digital, a narrativa volta a ser organizada dentro dos limites da página, com quadros simultaneamente visíveis ao leitor.
No webtoon, essa unidade deixa de existir.
A história pode formar uma longa sequência vertical. O leitor vê apenas aquilo que cabe naquele momento na tela e precisa rolar para descobrir o que vem depois.
Surge aquilo que se costuma chamar de “tela infinita”.
Não foi apenas uma adaptação dos quadrinhos ao computador ou ao celular. A rolagem vertical tornou-se uma nova ferramenta narrativa, permitindo ao autor controlar fluxo e ritmo por meio da própria distância entre os quadros.
O espaço também conta a história
É aqui que a coisa fica especialmente interessante.
Imagine uma personagem entrando sozinha em um corredor escuro.
Vemos seu rosto.
Rolamos a tela.
Nada.
Rolamos mais um pouco.
O corredor continua vazio.
Mais um movimento do dedo.
E somente então surge uma mão atrás de uma porta.
Na página impressa, talvez nossos olhos percebessem a mão antecipadamente. No celular, ela ainda não existe para o leitor enquanto estiver abaixo da área visível.
E o espaço vazio entre as duas imagens passa a produzir expectativa.
Um intervalo pequeno pode acelerar uma ação. Um grande espaço pode representar silêncio, passagem de tempo, hesitação ou suspense.
O vazio deixa de ser apenas separação entre quadros e passa a participar da narrativa. É uma possibilidade apontada inclusive nos estudos da indústria coreana sobre o formato: variar os intervalos permite controlar o ritmo e aumentar a tensão.

O leitor também movimenta a história
Existe ainda uma diferença curiosa.
No cinema, o diretor determina o instante do corte. Na HQ impressa, o leitor movimenta os olhos pela página e depois vira a folha.
No webtoon, o leitor puxa a próxima imagem para dentro da tela com o próprio dedo.
É uma pequena ação física, mas muda nossa relação com a narrativa.
O autor decide a distância. O leitor decide a velocidade com que irá percorrê-la.
Por isso um webtoon não é simplesmente uma história em quadrinhos convencional colocada na internet. Sua composição pode ser concebida desde o início para a rolagem vertical. A KOCCA distingue justamente esse formato das primeiras HQs digitais, que muitas vezes eram apenas páginas impressas digitalizadas e exibidas na tela.
Cor, enquadramento e celular
O novo suporte também favoreceu outras características.
Os webtoons tornaram comum o uso da cor, enquadramentos adequados às pequenas telas e sequências construídas verticalmente. Close-ups podem ocupar praticamente toda a largura do telefone; cenários podem prolongar-se para baixo; uma queda pode literalmente acompanhar o movimento da rolagem.
A chegada dos smartphones foi decisiva para ampliar essa linguagem e transformá-la em um fenômeno de entretenimento dentro e fora da Coreia.
Hoje a influência já percorre o caminho inverso: quadrinhos originalmente concebidos para outros formatos também vêm sendo adaptados para a leitura vertical em celulares.
Da página à rolagem
Talvez a melhor maneira de compreender essa mudança seja experimentá-la.
A pequena história abaixo foi criada sem diálogos, para que possa ser acompanhada independentemente do idioma do leitor.
Em vez de lê-la como uma página convencional, role lentamente.
Observe principalmente os espaços entre as imagens.
Quanto maior o intervalo, maior pode ser a espera pela próxima informação.
E talvez seja aí que esteja a contribuição mais interessante dos webtoons coreanos para a linguagem dos quadrinhos: ao retirar os limites da página, eles descobriram que até o espaço vazio poderia contar uma história.
| Para conhecer webtoons Para quem quiser experimentar o formato em histórias publicadas profissionalmente, a WEBTOON em português é a referência mais conhecida. Outra opção é a plataforma coreana Toomics em português. |
Veja um modelo de HQ nesse formato que preparamos para vocês:

















