
Felipe Tadeu foi um aluno de muito talento, desenhista brilhante, criativo e versátil. Basta conferir sua galeria de desenhos para perceber como transita entre diferentes estilos, da dinâmica dos desenhos a traço às ilustrações coloridas digitalmente.






Na animação, atua desde a criação de personagens e estruturas de rigs até a animação propriamente dita, sempre buscando resultados de grande fluidez. Felipe integrou a primeira turma do Curso de Design de Animação da UFSC e hoje é um profissional muito atuante no mercado de animação.
CG — O que te levou a fazer o Curso de Animação da UFSC? Foi o gosto por desenhar ou você já tinha curiosidade por essa atividade tão diferente?

Felipe — É uma resposta ampla, mas, tentando resumir: na época da escola tive contato com um aluno do Design, o Tiago Colombo. Ele fazia parte de uma ONG que atuava em escolas. Tivemos uma proximidade e foi assim que tive o primeiro contato com design.
Depois disso, fiz um pré-vestibular do curso de Letras, cujas aulas eram nas salas do CCE. Então tive um contato físico com o ambiente onde o curso estava. Mas o que me fez conhecer mesmo a possibilidade de fazer animação foi uma palestra do professor Milton Horn.
Eu queria fazer algo relacionado a desenho, mas nada que tivesse cálculo envolvido, considerando minha deficiência de formação e minhas inseguranças como indivíduo. Enfim, essa é mais ou menos a origem de como fui parar no curso de Design com habilitação em Animação.
CG — Ao cursar as disciplinas do Design de Animação da UFSC, quais mais te atraíram? Em algum momento você percebeu qual seria o caminho que seguiria profissionalmente?
Felipe — As disciplinas que mais me chamaram a atenção na formação não foram as que envolviam tanto desenho, mas a parte teórica. Semiótica, por exemplo, foi uma disciplina que me ajudou muito na intenção de cena, pose etc.
Teve também uma disciplina de caricatura que me deixou mais seguro e confiante na minha aptidão. Mas considero disciplinas como Estatística, Teoria da Luz e Cor e História da Arte essenciais para minha visão profissional.
Um ponto importante a ressaltar foi meu contato com conceitos de 3D. Hoje não trabalho nessa área, mas eles foram muito importantes para a formação do pensamento sistemático que tenho atualmente.
CG — Considera que o Curso de Design de Animação foi satisfatório para sua entrada no mercado de trabalho?
Felipe — Considero demais! Venho de uma origem humilde, em que o caminho natural seria fazer um curso técnico, como meu pai ou meus tios. Ter contato não apenas com o curso, mas com o ambiente universitário, possibilitou ampliar minha visão de mundo e, consequentemente, ter uma visão mais clara do mercado de trabalho.
Agradeço demais às políticas públicas que foram fundamentais para meu ingresso na faculdade e também às políticas públicas que ajudaram a criar habilitações, expandir os cursos e, consequentemente, ampliar o mercado de trabalho do audiovisual.
CG — Já se passaram alguns bons anos desde sua entrada na vida profissional. Considera que fez uma boa escolha?
Felipe — Considero! Apesar dos pesares — e não são muitos pesares —, sinto-me um privilegiado por trabalhar na área. Porém, não romantizo nem trato o que faço como arte, como muitos profissionais da área.
Considero um trabalho no qual tenho que cumprir metas, entregas e padrões de qualidade, tudo isso utilizando processos artísticos, mas não como artista. Não sou artista; sou um profissional do audiovisual com foco em animação cutout. Sempre que posso, reafirmo essa visão.
CG — Percebe-se, pelos depoimentos de outros profissionais do mercado, que essa é uma atividade de alta rotatividade, sempre em função de novos projetos e novas séries. Sua vida profissional tem sido esse carrossel ou você conseguiu alguma estabilidade?
Felipe — Consegui! É uma resposta complexa, mas busquei fazer carreira em estúdios. No primeiro, a Belli, fiquei mais ou menos cinco anos. Agora, na Split, estou há mais de seis.
Existe um ônus em permanecer no mesmo estúdio. Nem sempre os projetos em que se trabalha são os melhores, nem as remunerações são as melhores. Mas existe o bônus da estabilidade e da possibilidade de explorar diferentes áreas da produção de uma série de animação.
Eu mesmo pude ir de trainee a diretor geral de série. Fiz também algumas coisas em produção, conceito etc.
CG — Dentre os projetos em que trabalhou, quais mais te satisfizeram profissionalmente?
Felipe — Tuca, o Mestre Cuca e Turma da Mônica, quarta temporada.
Em Tuca, fiz direção geral, direção de episódio e supervisão da série. Fui eleito pelos meus pares para isso e acredito ter feito um bom trabalho, considerando o contexto em que estávamos.
Em Turma da Mônica, fiz supervisão de animação, mas com características de direção, ao meu ver. Consegui empregar uma visão de produção que deu certo. Conseguimos manter a qualidade com prazos curtos, equipe enxuta e tudo isso sem onerar muito a equipe.
CG — Tem conseguido criar projetos autorais ou a atividade profissional é tão intensa que não sobra tempo para isso?
Felipe — Apesar dos pesares, tenho, sim! Acredito que, nesse mercado, se você não tiver uma propriedade intelectual, dificilmente consegue uma validação do trabalho, a menos que seja uma excepcionalidade, uma pessoa fora da curva.
Para entrar nas “panelinhas” de gestão de projeto — direção, direção de animação etc. —, é preciso ter algo pessoal. Então estou em busca disso. Para isso, é importante encontrar parceiros, e é o que estou fazendo.
CG — Pode compartilhar alguma dessas ideias?
Felipe — Melhor não. Deixa vingar que depois falo sobre elas.
CG — A Inteligência Artificial tem interferido em sua atividade, direta ou indiretamente? Já começa a modificar o processo de produção?
Felipe — Ainda não, mas vai! O mercado de séries de animação tem muito desperdício de recursos, muita desorganização, muita tentativa e erro sem considerar etapas de teste nos cronogramas, gerando gargalos.
Acredito que a IA vai entrar nesse espaço, não tanto para substituir o profissional de conceito, pré-produção, animação ou pós-produção.
E, em algum momento, o professor também virou personagem: Felipe Tadeu me transformou neste walk cycle.
