
Este é o primeiro de quatro artigos sobre os quadrinhos orientais. Começamos pelo Japão e pelo mangá; nos próximos textos, vamos olhar para o manhwa, da Coreia, e o manhua, da China, além de colocar essas linguagens lado a lado para entender suas diferenças.
Tezuka e uma nova linguagem
No pós-guerra, Osamu Tezuka ajudou a transformar profundamente os quadrinhos japoneses. Em obras como Astro Boy, iniciado em 1952, aparecem características que mais tarde seriam identificadas internacionalmente como “estilo mangá”: olhos grandes, rostos simplificados, expressões acentuadas e forte sensação de movimento.

Tezuka também incorporou à página recursos próximos da linguagem cinematográfica: mudanças de plano, closes, sequências de movimento e variações de ritmo.
O mangá deixava de ser apenas uma sequência de desenhos para explorar intensamente tempo e movimento dentro da página.
Imagem: página de Astro Boy, de Osamu Tezuka.
A reação do gekiga
Mas o desenho de Tezuka nunca foi a única linguagem do mangá.
Nos anos 1950 surge o gekiga, expressão associada a autores que procuravam histórias mais adultas, dramáticas e realistas. Os personagens ganham anatomias menos caricatas, rostos individualizados, sombras mais fortes e ambientes mais densos.
Enquanto uma vertente caminhava para a estilização, outra procurava aproximar os quadrinhos da representação realista.
Imagem: página de Yoshihiro Tatsumi ou outro autor representativo do gekiga.
Lobo Solitário
Publicado a partir de 1970, Lobo Solitário, escrito por Kazuo Koike e desenhado por Goseki Kojima, é um excelente exemplo dessa tradição.

Os rostos possuem feições individualizadas, rugas, diferenças de idade e características japonesas reconhecíveis. O pincel, as manchas negras e as linhas gestuais dão enorme força às cenas de combate.
É mangá — mas está muito distante daquilo que hoje costumamos chamar genericamente de “desenho de mangá”.
Imagem: página de Lobo Solitário, preferencialmente um exemplar da coleção do autor.
Akira e a precisão do desenho
Em 1982, Katsuhiro Otomo inicia Akira. Seu desenho leva a precisão gráfica a outro patamar: arquitetura, motocicletas, máquinas, perspectiva e cenários urbanos são construídos com enorme rigor.

Os personagens continuam relativamente naturalistas e Otomo utiliza enquadramentos e sequências com forte influência cinematográfica.
Mais uma vez estamos diante de uma obra imediatamente reconhecida como mangá, mas sem depender dos códigos gráficos normalmente associados ao chamado “estilo mangá”.
Imagem: página de Akira, preferencialmente um exemplar da coleção do autor.
E o mangá contemporâneo?
Hoje convivem no Japão mangás realistas, caricaturais, minimalistas e extremamente estilizados. Olhos grandes, narizes reduzidos, cabelos geometricamente construídos e expressões codificadas tornaram-se uma das linguagens mais reconhecidas internacionalmente — mas nunca foram a única.
Talvez esteja aí a primeira conclusão desta série:
mangá não é um estilo de desenho.
É uma tradição de quadrinhos dentro da qual diferentes estilos nasceram, conviveram e continuam se transformando.
E essa distinção será importante quando atravessarmos o mar.
No próximo artigo: o manhwa e os quadrinhos da Coreia.

