
Hoje a conversa é com Alexia Araújo, formada pela UFSC no Curso de Animação, com mestrado no Pós-Design, também na UFSC, e que agora parte para a Inglaterra, selecionada pelo Chevening, um dos mais prestigiados programas internacionais de bolsas de estudo.
Desenhista, roteirista e, sobretudo, uma produtora de conteúdo ímpar, autora da premiadíssima animação Ausência, Alexia parte agora para novos horizontes.
CG — O que te motivou a fazer o Curso de Animação da UFSC? O fato de já gostar de desenhar, uma paixão por desenhos animados ou até games?
Alexia — Sempre gostei de desenhar desde criança e queria fazer uma faculdade na área das artes e da criatividade. Quando chegou o momento de prestar vestibular, descobri que a UFSC havia aberto o curso de Animação e resolvi me inscrever. Acabei passando e foi assim que comecei minha trajetória na área. Eu já tinha tido um primeiro contato com a animação na adolescência, quando fiz um curso técnico, então já existia uma certa familiaridade com o campo, mas a graduação foi o que realmente acendeu meu interesse profissional pela animação.
CG — Ao ingressar no Curso de Animação, qual a especialidade que mais te chamou a atenção? Animação 2D, 3D, criação de personagens, roteiro…?
Alexia — Por já gostar muito de desenhar, inicialmente me interessei mais pelas disciplinas relacionadas ao desenho, como desenho de observação e desenho aplicado. Mas, ao longo do curso, descobri que gostava muito também da área de produção. Mesmo não tendo uma disciplina específica dedicada à produção, eu gostava muito de desenvolver os projetos e de acompanhar todas as etapas de uma produção de animação, desde a ideia inicial até a finalização. Também percebi que tinha bastante facilidade e interesse pela área de roteiro. Acho que foi justamente essa possibilidade de transitar por diferentes etapas e funções que acabou definindo muito da minha trajetória dentro da animação.
CG — Já durante o curso, percebe-se que você segue por uma linha ligada à causa LGBTQIA+, em especial às questões lésbicas. Foi também por esse motivo que surgiu esse viés acadêmico tão presente no seu trabalho? Já no teu próprio PCC havia uma forte presença acadêmica em sua formatação.
Alexia — Por ser uma mulher lésbica e por acreditar muito na importância das causas sociais, comecei a perceber uma lacuna muito grande na produção audiovisual voltada para o público LGBTQIA+. No caso da animação, isso me chamava ainda mais atenção porque existe um senso comum de que animação é necessariamente um conteúdo infantil. Isso acaba fazendo com que muitas histórias e discussões relacionadas à diversidade sejam deixadas de lado, como se não houvesse espaço para elas nesse formato. Então comecei a pensar que essas histórias também precisavam ser contadas. Acredito que pessoas LGBTQIA+ de todas as idades merecem se reconhecer nas telas e ter acesso a histórias que representem suas experiências. Foi a partir desse interesse artístico e também dessa inquietação social que essa temática começou a aparecer cada vez mais no meu trabalho e, posteriormente, na minha trajetória acadêmica.
CG — Sua animação Ausência, que inclusive já mostrei aqui no site, teve uma repercussão muito positiva, sendo premiada e apresentada em inúmeros festivais. Isso foi uma forte motivação para você se consolidar nessa linha de pesquisa?
Alexia — Com certeza. Uma das partes que eu mais gosto de fazer animação é justamente a etapa de distribuição dos filmes e o contato com os festivais. São ambientes muito ricos para fazer networking, apresentar nosso trabalho, conhecer outros realizadores e, principalmente, entrar em contato com diferentes formas de pensar e fazer cinema. Durante a circulação de Ausência por esses festivais, comecei a perceber uma coisa que me chamou muito a atenção: encontrei pouquíssimas animações com temática LGBTQIA+, especialmente histórias lésbicas. Isso acabou reforçando ainda mais a minha percepção de que existe uma lacuna nessa produção e me motivou a continuar trabalhando com essas narrativas e pesquisando sobre o tema.
CG — Poderia falar um pouquinho da sua dissertação de mestrado?
Alexia — Meu mestrado foi voltado para o estudo de narrativas transmídia. Eu me especializei academicamente na área de roteiro, embora, na minha trajetória profissional, tenha trabalhado bastante também com produção e produção executiva. Na pesquisa, desenvolvi um novo procedimento metodológico pensado para facilitar a criação e o planejamento de roteiros transmídia. Para testar esse procedimento, trabalhei com contos de bruxas e explorei como essas narrativas poderiam ser transformadas e adaptadas para a estrutura de um jogo digital.
Para quem tiver interesse em conhecer a pesquisa completa, a dissertação está disponível no Repositório Institucional da UFSC:
https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/264953?show=full
CG — Como te acompanho pelas redes sociais, vi que promoveu várias atividades ao longo da tua trajetória. Além de dar aulas na UFSC, conseguiu manter uma agenda bem agitada. Poderia falar um pouco sobre algumas dessas atividades?

Alexia — Eu gosto muito de trabalhar com cultura e com eventos culturais, principalmente na área audiovisual. Foi desse interesse que surgiram alguns dos projetos aos quais me dedico hoje. Junto com minha companheira, criei o BEE, um festival de cinema lésbico realizado anualmente em São Paulo, e também criei o AnimaQUEER, um festival voltado à animação LGBTQIA+. Ambos pioneiros no Brasil. Estamos agora na terceira edição do AnimaQUEER, que será realizada em Florianópolis. Os dois eventos contam com mostras de filmes, palestras e oficinas, e em algumas ocasiões também participo como palestrante. Além disso, procuro me envolver em diferentes projetos independentes. Gosto muito dessa experiência porque acredito que cada projeto traz um tipo de conhecimento e de aprendizado que dificilmente conseguimos adquirir apenas dentro da universidade.
Palestra em um evento Queer.
CG — E agora esta que podemos chamar de uma “premiação”: passar um tempo na Inglaterra através do Chevening, um dos programas de bolsas de estudo mais prestigiados do mundo. Poderia contar como isso aconteceu?
Alexia — Eu sempre tive vontade de fazer um intercâmbio para ampliar meus horizontes e conhecer outras formas de pensar e produzir animação. No ano passado, resolvi me inscrever no Chevening, um dos programas de bolsas de estudo mais concorridos do mundo. Foi praticamente um ano de processo seletivo, envolvendo várias etapas, redações e entrevistas. Em julho deste ano, recebi a notícia de que havia sido selecionada, fazendo parte de um grupo de apenas 0,8% dos candidatos aprovados. Foi uma felicidade enorme.
Além disso, fui a única pessoa da área de animação selecionada para o programa em todo o mundo naquele ciclo, em meio a profissionais e pesquisadores de áreas muito diversas, como engenharia, medicina e outras áreas do conhecimento. Agora vou passar um ano estudando Animação em Nottingham, na Inglaterra, e espero voltar ao Brasil com uma bagagem ainda maior de conhecimentos, ferramentas e experiências que possam ser aplicadas nos projetos e na produção de animação que desenvolvemos por aqui.
CHEVENING — UMA BOLSA PARA FUTUROS LÍDERES O Chevening é o programa internacional de bolsas de estudo do governo britânico, financiado pelo Foreign, Commonwealth & Development Office (FCDO) e organizações parceiras. Criado em 1983, permite que profissionais de diferentes partes do mundo realizem cursos de pós-graduação no Reino Unido. As bolsas Chevening possibilitam a realização de um mestrado de um ano em universidades britânicas e oferecem apoio que inclui os custos acadêmicos, passagens aéreas, visto e auxílio para despesas durante a permanência no país. O processo de seleção é altamente competitivo. Além da formação acadêmica, o programa procura candidatos com potencial de liderança e capacidade de promover transformações em suas áreas de atuação e em seus países. Mais do que uma bolsa de estudos, o Chevening busca construir uma rede internacional de profissionais, pesquisadores e lideranças, promovendo o intercâmbio de conhecimentos, experiências e culturas. Para Alexia Araújo, selecionada para estudar Animação em Nottingham, a experiência representa mais um passo em uma trajetória construída entre animação, produção audiovisual, pesquisa acadêmica e projetos culturais. Saiba mais sobre o programa: https://www.chevening.org/ |
CG — E uma pergunta que sempre faço ao final dessa pequena entrevista: a IA chegou a influenciar teu trabalho? Ajudou ou foi totalmente irrelevante?
Alexia — Até o momento, a IA foi praticamente irrelevante na minha trajetória criativa. Eu não utilizo IA para produzir meus trabalhos, principalmente por atuar em uma área criativa. Acredito que o processo criativo e intelectual de conceber, desenvolver e tomar decisões sobre uma obra deve continuar sendo essencialmente humano.
Acredito que a IA pode até ser útil para tarefas mais mecânicas, organização de informações ou determinadas etapas administrativas de um projeto. Mas, quando falamos especificamente da criação e do desenvolvimento artístico das obras, ela não teve um papel relevante na minha trajetória até aqui.
