
A conversa de hoje é com Dani Bragaglia, que conheci no longínquo ano de 2009, no Curso de Design de Animação da UFSC. De lá para cá, ela nunca mais deixou de respirar animação. Sempre muito criativa e profissional, já durante o curso teve a oportunidade de trabalhar na Belli Studio, participou, com colegas de turma, de uma edição especial do Anima Mundi e, em seu Trabalho de Conclusão de Curso, junto com Nina Pinho, desenvolveu uma animação que também foi classificada para o festival. Com profissionalismo e criatividade, conquistou o Velho Mundo e morou em vários países.
CG: O que te levou a procurar o curso de Design de Animação na época? Lembro que tu curtia desenhos de anime e mangás.

DB: Obrigada por ter essa conversa sobre animação. É gratificante saber que ainda existam blogs dedicados ao tema, reunindo informação e curiosidades sobre animação no Brasil! Quando estava na época de buscar uma faculdade para prestar vestibular, vi que haviam aberto o curso de Design de Animação. A animação sempre foi algo constante na minha infância, que foi regada de animes, cartoons e afins, e pensar que eu poderia aprender a usar meus desenhos como uma futura profissão me pareceu uma boa ideia.
CG: Considera que o Curso de Design de Animação foi importante para definir a animação como profissão?
DB: Bom, eu entrei no curso como parte da segunda turma. Ou seja, era um curso novo, que estava se moldando para virar o que é hoje. Vivi muitos momentos caóticos na universidade, não vou mentir. Na minha época, em 2009, quando o curso estreou, a indústria da animação não era tão grande como hoje e, consequentemente, havia poucos profissionais e tutores especializados na área. Então, mais do que o curso em si, o que foi importante na universidade para ajudar a moldar a animação como profissão foi, sem dúvida, o incentivo e o apoio de alguns professores, especialmente teu, Clóvis. Tu estavas sempre tentando trazer palestrantes, buscando criar disciplinas relevantes para o curso, criando iniciativas de projetos e exposições dos trabalhos dos alunos etc.
CG: A tua primeira experiência profissional foi na Belli Studio, por duas vezes, inclusive. Esse começo ajudou na tua vida profissional?
DB: Sem dúvida. Uma experiência profissional na área foi fundamental para o meu aprendizado. Estar dentro de um estúdio e ver de perto como funciona uma produção de animação, experimentando na pele toda a pressão de uma produção de verdade, conhecendo profissionais incríveis que me apoiaram e ensinaram muito do que sei hoje. E também passando pelos momentos difíceis, deadlines apertados e outras coisas que podem ser comuns em qualquer produção. Viver tudo isso de perto, primeiro como júnior e depois como profissional independente, foi um aprendizado imenso, não só para minhas habilidades como animadora, mas também para aprender a navegar na indústria e não ser engolida por ela.
CG: Você foi parar no Velho Mundo. Como foi parar lá?
DB: Fui para a Irlanda para fazer um curso de inglês. A internet estava explodindo de informação sobre animação, e grande parte desse conteúdo estava em inglês. Para poder aproveitar todo o conhecimento que queria, percebi que o inglês era essencial e me joguei em uma imersão em um país dessa língua estrangeira.
CG: E a Europa, que é uma união de pequenos países, permite circular como se fosse um Brasil com vários idiomas. Em quantos países já morou e trabalhou?
DB: Falar inglês e tirar meu passaporte europeu me abriram muitas portas, não se pode negar. Com essa facilidade de visto, pude trabalhar em vários projetos diferentes e usei isso a meu favor para morar temporariamente em vários lugares. Já participei de produções na Alemanha, França, Inglaterra e Espanha. O inglês é sempre a língua usada em muitas produções, pois, assim como eu, muitas pessoas saem de seus países para trabalhar em projetos diferentes. Conheci muita gente de vários lugares. É muito comum trabalhar em uma produção na Inglaterra, por exemplo, e ter colegas de trabalho da Áustria, Itália, Portugal etc.
CG: Desses trabalhos todos, de qual gostou mais? Chegou a ter um preferido?
DB: Mais do que o trabalho em si, acho que a equipe conta muito. No fim das contas, a animação é um trabalho. Seja um projeto preschool ou o novo filme do Homem-Aranha, é mais um trabalho. Acho que, se a equipe entrega, trabalha bem junta e com respeito, esse é o trabalho mais gratificante e gostoso de fazer. Os projetos em que mais aprendi com meus supervisores e colegas foram os que mais gostei.
CG: Teu ritmo de trabalho permite fazer projetos pessoais ou, no fim do dia, tu só quer parar e ver um filme? Gostaria de ter mais tempo para se dedicar a algo autoral?

Desenho de um rig e anaimação da Dani de quanhdo trabalhava na Socialpoint
DB: Já estive em projetos em que não tinha tempo nem de respirar. Era trabalhar dia e noite para entregar. Chegar em casa era só tempo de comer e dormir para acordar cedo no dia seguinte e fazer tudo de novo. Isso aconteceu muito no início da minha carreira e não desejo isso para ninguém, mas a verdade é que a indústria da animação pode ser bastante intensa para animadores e artistas. É verdade também que o estresse e a quantidade de trabalho me fizeram evoluir muito rápido nas minhas habilidades de animação. Mas esse não deve ser um ritmo de vida permanente. Ao longo da minha jornada, fui buscando cada vez mais um equilíbrio entre qualidade de vida e trabalho. Hoje em dia, felizmente, tenho esse equilíbrio. Já dediquei minhas horas de lazer à pintura e ao desenho. Às vezes faço um loop curtinho de animação para experimentar uma técnica que normalmente não uso no meu dia a dia profissional. Tento mesclar lazer com treinamento na área, seja com desenho, sessões de life drawing, pintura ou leitura sobre o tema. No momento, não tenho interesse em uma produção autoral solo. O que me empolgaria seria reunir amigos animadores para fazer algo em colaboração. Quem sabe um dia.
CG: A IA já começa a atrapalhar o mercado de trabalho ou ainda é muito cedo para haver alguma interferência?
DB: Sim e não. De modo prático, não vejo muito progresso da IA na animação, apenas na geração de vídeos e conteúdo online. Porém, na indústria em que estou trabalhando no momento, a de casual e hyper-casual mobile games, vejo as empresas forçando o uso da IA, não tanto na parte artística dos jogos, mas, por exemplo, no marketing, na tradução e em outras áreas. Essa é a maior interferência que vejo da IA no momento. Na animação em si, não mudou muito na minha experiência.
Algumas animações da Dani
Desta animação já falei aqui, foi o Projeto de Conclusão de Curso que Dani desenvolveu junto com Nina Pinho
