
A conversa de hoje é com Marcos Sussumu Togo, o cara que consegue trabalhar dentro dos sonhos da gente. Afinal, animar produções envolvendo os nossos melhores personagens com certeza realiza a vida de qualquer um. Mas, por trás dessa felicidade toda, teve uma trajetória de muito trabalho e dedicação.
Quando você fez a opção pela animação e por quê? Lembro que foi uma matéria que você viu na RBS TV falando sobre o novo curso de animação da UFSC, mas você já curtia essa área antes?

Primeiramente, muito obrigado pelo convite, fico muito feliz de estar dando esta entrevista! Bom, inicialmente eu estava pensando em prestar o curso de Design na UFSC, pois era o curso mais próximo de animação que eu tinha achado na época, isso lá em 2009. Mas, no mesmo ano em que eu ia prestar vestibular, vi uma reportagem na RBS TV sobre o curso de Design de Animação. Não tive que pensar duas vezes.
Em sua vida profissional, tem conseguido trabalhar em produções próprias (no sentido de criar algum projeto pessoal) ou apenas sob demanda, trabalhos de terceiros e em empresas?
Depois que comecei a trabalhar em grandes produções, que frequentemente demandam muitas horas extras, e por mais que eu ame meu trabalho, a última coisa que eu quero fazer nas minhas horas livres é mais animação. Prefiro focar nos meus outros hobbies, como aprender a tocar piano e fotografia.
Em quantos estúdios já trabalhou em sua vida profissional? Eu, particularmente, que trabalhei uma vida toda com carteira assinada e empregos estáveis (e não fiquei rico com isso), sinto que hoje essa relação de trabalho mudou. No Brasil com PJ… e como tem sido aí no Canadá?
No Brasil, em animação, eu trabalhei em quatro estúdios diferentes, sendo os dois primeiros como animador de cutout (Belli Studio e 2DLab) e os dois últimos como animador 3D (StartAnima e Hype). Por mais que fossem projetos temporários, eu considerava esses projetos com um bom tempo de produção, geralmente de um ano.
Já no Canadá, eu trabalhei na MPC e, atualmente, na Framestore como animador de VFX, onde já estou há sete anos. Foi o trabalho mais estável que tive na vida.
Outra coisa que lembrei: mesmo tendo feito um curso superior relativamente forte em 3D, você fez um curso particular em animação 3D. Acha que essa complementação te ajudou?
No início, o curso de Design de Animação não tinha muita matéria focada em 3D. Ainda lembro de ter feito animação no Google SketchUp na época, lá por volta de 2010. Mas, com a entrada do Flávio, tive minhas primeiras aulas de animação 3D. Entretanto, como o curso ainda estava em desenvolvimento, era tudo muito corrido, e somente um semestre para aprender o software e entregar uma animação pronta não era o suficiente.
Como meu objetivo sempre foi o 3D, depois de atuar na área de cutout por alguns anos, foquei de vez em aprender 3D para conseguir trabalhar na área. E, com certeza, o curso que eu fiz (Blue School) me abriu muitas janelas de oportunidades.









Poderia falar de alguns trabalhos de que mais gostou de participar?
Pra falar a verdade, gostei de trabalhar na maioria deles, incluindo aqueles mais conhecidos pelo pessoal em geral, como Guardiões da Galáxia Vol. 3, Superman, Supergirl, Predador: Terras Selvagens, Gladiador 2 e, recentemente, Homem-Aranha: Um Novo Dia. São filmes com personagens icônicos que a gente conhece desde criança e nos quais eu jamais pensei um dia estar trabalhando nessas mega produções.
Também tem outras produções menos conhecidas, mas que me deram muito prazer em animar, como Flora e Ulysses e Slumberland.
Na sua carreira você atingiu um estágio bem legal, se dedicando mais à animação 3D. Como aconteceu esse processo? Lembro que, quando foi para o Canadá, já foi empregado.
Aconteceu meio que naturalmente. Ainda prestando faculdade, surgiu uma oportunidade de trabalho durante as férias de verão lá em Blumenau, na Belli Studio. Foram somente dois ou três meses, mas que me impulsionaram a querer trabalhar mais nessa área.
Algum tempo depois, fiz estágio obrigatório e fiquei alguns meses a mais nesse mesmo estúdio. Tempos depois, fui trabalhar alguns meses na RBS TV, fazendo algumas artes para o jornal da TV. Logo após, consegui uma oportunidade de trabalho no Rio de Janeiro, para a 2DLab. Tive que pausar a faculdade na época, porque a oportunidade era muito boa.
Lá aprendi ainda mais sobre animação em cutout e pensei que isso seria o meu futuro por um bom tempo. Fiquei lá durante um ano e voltei para Floripa para dar seguimento à faculdade. Durante esse período, ainda continuava fazendo freelance para esse mesmo estúdio enquanto começava meu curso de animação 3D.
Depois de formado, fiz uma entrevista para trabalhar num projeto de longa-metragem em 3D (Lino), em São Paulo, na StartAnima. Foi meu primeiro trabalho nessa área e comecei com animação de crowds, que são personagens que ficam mais no background. Foi uma ótima experiência para pôr em prática tudo o que eu estava aprendendo no curso de animação 3D, que ainda estava acontecendo.
Fiquei lá durante um ano também e voltei para Floripa no mesmo esquema de freelance. Trabalhei em dois projetos ao mesmo tempo nessa época, um na própria StartAnima e outro num estúdio chamado Hype.
Um ano após ter voltado para Floripa, meu supervisor de animação do projeto Lino me indicou para trabalhar em um estúdio aqui no Canadá, a MPC.
Apesar de ter negado na primeira vez, pois não me sentia preparado, ele insistiu para que eu enviasse uma demo reel para ver o que aconteceria. E, de fato, semanas depois veio a proposta para eu trabalhar no exterior.
A área de VFX era uma área da qual eu não tinha o menor conhecimento, mas que tomou grande parte da minha vida profissional. Trabalhei durante quase um ano na MPC e logo em seguida fui para a Framestore, onde atualmente trabalho. Já fazem sete anos que estou aqui nessa empresa, que valorizo muito, pois foi uma das únicas que conseguiram segurar as pontas no meio da crise da Covid e da greve dos atores, que afetou fortemente a indústria em que atuo.
A IA já está afetando o mercado de trabalho ou ainda é cedo para avaliar? Qual a tua percepção sobre isso?
Por enquanto, ainda não vi nenhuma diferença significativa na minha área de atuação. Entretanto, é um tema que não se pode ignorar. Acredito que elas devam vir como ferramentas para auxiliar o processo de animação, e não para substituir os animadores. Algumas áreas serão beneficiadas e outras nem tanto, vai depender de cada caso.
Sei que existem ferramentas de criação de vídeos com resultados incríveis, mas ajustes finos ainda são difíceis de alcançar.
Sendo assim, penso que ainda é cedo para dizer a maneira exata como a IA afetará o mercado de VFX, mas que ela irá mudar a maneira de fazer animação, isso com certeza.
Enfim, fica aqui meu agradecimento novamente pelo convite e espero que todos que acompanham este blog tenham curtido a entrevista.
Uma das muitas super produções em que Sussumu trabalhou
