
Quando se fala em quadrinhos asiáticos, o Japão imediatamente nos leva ao mangá. A Coreia do Sul, cada vez mais, ao manhwa e aos webtoons. Mas e a China?
A resposta parece simples: manhua.
Só que a história dos quadrinhos chineses é bem mais complicada — e interessante — do que simplesmente trocar uma palavra japonesa por outra chinesa.
Durante boa parte do século XX, milhões de chineses tiveram contato com histórias em quadrinhos através de pequenos livros chamados lianhuanhua (连环画), expressão que pode ser traduzida literalmente como “imagens encadeadas”.
Eram publicações pequenas, feitas para caber na mão — e no bolso.


Pequenos, baratos e fáceis de transportar, os lianhuanhua fizeram parte da cultura cotidiana chinesa durante boa parte do século XX.
O formato consolidou-se nas décadas de 1920 e 1930 e tornou-se parte da cultura cotidiana chinesa. Crianças e adultos liam esses pequenos livros em casa, no trabalho e até em bibliotecas de rua, onde exemplares podiam ser compartilhados ou alugados.
Segundo o projeto acadêmico ChinaComx, da Universidade de Heidelberg, estima-se que cerca de 50 mil títulos de lianhuanhua tenham sido publicados desde a criação da República Popular da China, em 1949. Um levantamento digital lançado pelo projeto em setembro de 2026 já reúne registros de mais de 38 mil publicações históricas.
Uma página, uma imagem
Para um leitor ocidental acostumado à página dividida em quadros, o lianhuanhua pode causar certo estranhamento.
Em sua configuração clássica, é comum encontrar uma ilustração ocupando a maior parte da página acompanhada por um pequeno bloco de texto.
A sequência acontece ao virar as páginas.
Imagem. Texto. Outra imagem. Outro texto.
A própria página funciona praticamente como um quadro.

No lianhuanhua tradicional, uma única imagem frequentemente ocupa a maior parte da página, acompanhada pelo texto narrativo.
Isso produz um ritmo narrativo bastante diferente daquele dos quadrinhos ocidentais e também do mangá japonês. Em vez de organizar vários momentos dentro de uma mesma página, a narrativa frequentemente avança imagem por imagem.
A linguagem visual, entretanto, nunca foi única.
O lianhuanhua absorveu influências da pintura tradicional chinesa, ilustração, fotografia, cinema e cartazes de propaganda, produzindo uma variedade de soluções gráficas ao longo das décadas.
Entre literatura e cultura popular
O lianhuanhua serviu para contar praticamente tudo.
Clássicos da literatura chinesa foram adaptados para o formato, assim como lendas, romances históricos, histórias infantis, aventuras, biografias e posteriormente até obras estrangeiras.
O acervo do ChinaComx oferece uma amostra fascinante dessa diversidade. Há adaptações de Lu Xun, histórias do herói mitológico Nezha, ficção científica, narrativas sobre medicina tradicional chinesa e até uma adaptação de Guy de Maupassant.
Isso transformou o pequeno livro também em uma importante porta de entrada para a literatura.
Mas os quadrinhos logo demonstrariam outra capacidade: comunicar ideias a uma população imensa através de imagens e textos relativamente simples.
E o poder político percebeu isso.
Quadrinhos também como propaganda
Depois da fundação da República Popular da China, em 1949, o lianhuanhua continuou sendo uma forma de entretenimento, mas também passou a ser utilizado como instrumento de educação política.
Heróis socialistas, trabalhadores, soldados e acontecimentos históricos passaram a dividir espaço com histórias tradicionais e adaptações literárias.
Os assuntos podiam chegar a temas extremamente cotidianos. O ChinaComx registra, por exemplo, histórias destinadas a explicar a utilidade dos fertilizantes na produção agrícola.



Além do entretenimento, o enorme alcance popular do lianhuanhua fez com que o formato também fosse utilizado para educação e propaganda política.
Durante a Revolução Cultural, entre 1966 e 1976, esse papel político ganhou particular importância.
Mas seria um erro reduzir toda a produção chinesa do período à propaganda.
A diversidade do acervo inclui adaptações literárias, histórias de guerra, narrativas juvenis, divulgação científica e, posteriormente, ficção científica, convivendo com obras explicitamente ideológicas.
Depois de Mao, outras histórias
Com o fim da Revolução Cultural e o início do período de reformas, o universo do lianhuanhua voltou a se ampliar.
Temas e estilos que dificilmente encontrariam espaço poucos anos antes começaram a aparecer. Surgiram trabalhos abordando inclusive os sofrimentos provocados pela própria Revolução Cultural, além de experiências com xilogravura, ficção científica e adaptações não oficiais de obras estrangeiras — incluindo Star Wars.
A dimensão desse mercado impressiona.
O ChinaComx registra uma estimativa segundo a qual, em 1986, um de cada três livros publicados na China teria sido uma história em quadrinhos. Os próprios pesquisadores apresentam o número com ressalva, mas ele dá uma ideia da enorme presença cultural alcançada pelo formato.
É também desse período uma pequena obra que vale a pena conhecer.
LEIA UMA HQ CHINESA COMPLETA
Diary of a Madman — 狂人日记 (1981)
Baseada no famoso conto de Lu Xun, um dos textos fundamentais da literatura chinesa moderna, esta adaptação foi escrita e desenhada por Ye Guoding e publicada em setembro de 1981.
É curtíssima: 13 quadros distribuídos em duas páginas.
E justamente por isso é uma excelente porta de entrada para quem nunca leu quadrinhos chineses.
Ye Guoding fez algo particularmente interessante: transformou cada um dos 13 capítulos do conto de Lu Xun em um único quadro, usando expressões e corpos distorcidos para traduzir visualmente a atmosfera perturbadora do texto.
O projeto ChinaComx disponibiliza gratuitamente as páginas originais, acompanhadas da transcrição do chinês e da tradução para o inglês.

Leia Diary of a Madman completa no ChinaComx
ChinaComx — Comics Culture in the People’s Republic of China, Centre for Asian and Transcultural Studies, Universidade de Heidelberg.
Do lianhuanhua ao manhua
Aqui é importante fazer uma distinção.
Manhua (漫画) é um termo amplo associado aos quadrinhos chineses e de língua chinesa, enquanto o lianhuanhua constitui uma tradição e uma forma narrativa específica.
Lianhuanhua não é simplesmente um antigo nome para manhua.
Tanto que os pesquisadores do ChinaComx preservam deliberadamente o termo chinês em seus trabalhos, tratando-o como um fenômeno com características e contexto histórico próprios, assim como mangá, manhwa ou a bande dessinée franco-belga possuem suas próprias tradições.
Com a abertura econômica, a circulação internacional de produtos culturais e posteriormente a internet, os quadrinhos chineses passaram a dialogar cada vez mais com o mangá japonês, os quadrinhos de Hong Kong, a animação, os games e outras linguagens visuais.
A página também mudou.

Quando o papel encontrou a tela
Se o lianhuanhua era perfeito para o bolso, o quadrinho contemporâneo encontrou outro objeto que também vive nele: o telefone celular.
E aqui a China se aproxima de uma transformação que vimos anteriormente na Coreia do Sul.
A leitura digital favoreceu histórias coloridas, formatos verticais e narrativas construídas para rolagem contínua. O leitor já não necessariamente vira uma página: desliza o dedo pela tela.



A leitura no celular introduziu novas possibilidades de composição, cor, ritmo e continuidade aos quadrinhos chineses contemporâneos.
Mas seria simplificador dizer que os quadrinhos chineses apenas copiaram o webtoon coreano.
O universo contemporâneo do manhua reúne tradições locais, influências japonesas e coreanas, formatos digitais internacionais e uma indústria chinesa de entretenimento cada vez mais integrada.
Uma história pode circular entre quadrinhos, animação, games e produções audiovisuais.
É um ecossistema muito diferente daquele dos pequenos livretos vendidos e alugados nas ruas chinesas um século atrás.
Mangá, manhwa ou manhua?
| Mangá | Manhwa | Manhua | |
|---|---|---|---|
| Origem | Japão | Coreia | China e universo de língua chinesa |
| Escrita | 漫画 | 만화 | 漫画 |
| Tradição impressa | Fortíssima | Importante | Inclui tradições próprias, entre elas o lianhuanhua |
| Digital | Crescente | Central para o webtoon | Grande presença em plataformas digitais |
| Cor | Tradicionalmente muito P&B | Digital frequentemente colorido | Digital frequentemente colorido |
| Leitura digital | Vários formatos | Rolagem vertical fortemente associada ao webtoon | Vários formatos, inclusive rolagem vertical |
| Característica | Forte tradição editorial por públicos e gêneros | Integração entre webtoon e plataformas digitais | Grande diversidade histórica e regional |
Esses termos indicam tradições culturais e editoriais, e não simplesmente três estilos de desenho.
Um manhua não deixa de ser chinês porque visualmente se parece com um mangá japonês, assim como nem todo quadrinho vertical é coreano.
Do bolso para o bolso
Talvez exista uma curiosa continuidade nessa história.
Há quase um século, os lianhuanhua conquistaram leitores porque eram baratos, pequenos, fáceis de transportar e podiam ser lidos praticamente em qualquer lugar.
Cabiam no bolso.
Hoje, boa parte dos quadrinhos chineses pode ser acessada em uma pequena tela que também carregamos para todos os lugares.
Também cabe no bolso.
Entre um objeto e outro existe quase um século de transformações políticas, econômicas, tecnológicas e culturais.
Mudaram o suporte, a impressão, a cor, a composição da página e até o gesto necessário para continuar uma história — antes virávamos a página; agora deslizamos o dedo.
Mas permanece a mesma necessidade que deu origem às imagens encadeadas:
contar uma história, uma imagem depois da outra.
Para continuar explorando
O projeto ChinaComx, ligado à Universidade de Heidelberg e financiado pelo European Research Council, disponibiliza gratuitamente traduções e material acadêmico sobre lianhuanhua. Atualmente há 22 traduções no acervo, incluindo literatura, ficção científica, propaganda, histórias estrangeiras e trabalhos contemporâneos.
