
Quando eu era jovem, há muito tempo, eu adorava as revistas de Asterix e Tintim, a diferença delas em relação as demais era a riqueza de detalhes, principalmente a questão de arquitetura, sério, eu adorava e sabia que podia fazer igual, pelo menos parecido, mas nunca tive tempo, Uderzo e Goscinny tinham um ano para planejarem, pesquisarem e desenharem suas edições, cinco páginas por mês, não tinha como dar errado, só podia ficar perfeito.
No Brasil desenhistas de HQ tinham de produzir pelo menos duas páginas por dia para sobreviver, por isso fui para a imprensa ser chargista e editor de arte.
Mas investi um ano em uma HQ, você pode ler aqui https://clovisgeyer.art/tikuna/ eu desenhava quando voltava do jornal, escrevia o roteiro, fazia a pesquisa dos cenários e a Yara Souza colorizava. Foi o trabalho de um ano inteiro. Quando levei para as editoras, principalmente na Editora Globo que adorou o roteiro, fez algumas restrições a alguns desenhos, mas não aceitou o material por ser uma HQ em Florianópolis… enfim, não rolou, mas eu soube que era capaz de fazer algo bom.
Hoje resolvi fazer um teste para me convencer a usar a IA. Na sequência da HQ de Terroristas do Tempo comecei a desenhar algumas páginas com a intenção de reduzir o tempo de produção de três dias (sim, estava levando de três a quatro dias para desenhar uma página em função do seu grau de detalhamento) e, depois do teste, consegui fazer uma página bem sofisticada em um dia.
Com usando uma foto como referência fiz o cenário que eu queria, a foto era atual, mostrando uma feira de artesanato que existe hoje e não existia na época, eu queria que aparecesse o Arco do Triunfo com um ângulo bem específico, as fotos da época não conseguia que queria, então peguei uma atual e fui adaptando. Levei mais de quatro horas para um quadrinho, mas ficou bem legal, um nível de arquitetura bem satisfatório onde insere uma menina estudante da época para compor o desenho. Digamos que finalizei tudo em cinco horas.

Desenho que levei cinco horas para finalizar
Então peguei a foto e levei para um programa de IA, o Google AI Studio solicitando transformar um desenho a traço em estilo de Sketch, preto e branco, sem sombra… o que levei cinco horas ele fez em 85 segundos, praticamente a mesma coisa, era só eu pegar a estrutura que eu faria tranquilo e dar o meu acabamento, impor o meu estilo.
Daí, já com preguiça, solicitei que colorisse o desenho, mandei uma paleta de cores que eu estou usando na HQ como referência e o programa coloriu, qualquer correção que eu quiser, eu faço no Photoshop. É a imagem que ilustra esse artigo lá no começo

Desenho do cenário feito com IA, 85 segundos, não finalizei, não acrescentei as pessoas ao fundo, depois de tanto trabalho, vouusar o meu desenho, claro.
Não posso me dar ao luxo de dispensar esses recursos. Fico fazendo o exercício de que se eu fosse jovem e me deparasse com essa tecnologia, o que eu faria, acredito que em um primeiro momento ficaria impactado, não tem como não ficar, mas lembro que já passei por isso, quando a editoração eletrônica começou eu tinha 31 anos, uma vida inteira analógica, na prancheta com nanquim, régua, tintas e pincéis, me assustei com a ideia de ter de usar um computador, trabalhava na RBS na época, mas encarei: aprendi o Photoshop, Quark-X-Press o Aldus Freehand (uma espécie de Illustrator) e o sistema operacional do Macintosh, vi muitos colegas sucumbirem por não conseguirem aprender as novas tecnologias. Aí fui para a UFSC ser professor da área gráfica, então com mais de quarenta anos e apareceu a Internet, era um emprego estável, eu poderia ter ficado a vida inteira na área gráfica, mas em 1999 comecei a aprender softwares de Web, o Dreamweaver para fazer sites e o Macromidia Flash (que adorava) para fazer trabalhos multimídia e inserir o Jornalismo Online no Jornalismo da UFSC no ano de 2000. Com essa iniciativa consegui modernizar todo um currículo, diante de tudo isso, não, eu não brigo com a tecnologia, se eu fosse jovem usaria a IA, toda essa tecnologia a meu favor, me tornar mais competitivo. Talvez em um primeiro momento a IA te desempregue, mas em um segundo momento, com certeza quem vai te desempregar será quem souber usar a IA melhor que você.
Eu não estou desempregando, aos 71 anos estou me tornando mais competitivo para fazer meus desenhos e minhas HQs.
