
A ideia é a centelha inicial de qualquer criação humana — seja uma invenção tecnológica, uma obra de arte ou uma solução para um problema cotidiano.
Embora muitas vezes pareça surgir de forma súbita, como um “estalo”, o nascimento de uma ideia é, na verdade, resultado de processos mentais, experiências e estímulos que se acumulam ao longo do tempo. Entender esse processo é compreender um pouco mais sobre como pensamos e criamos. Essa é uma definição genérica e cada indivíduo pode desenvolver a sua, o “estalo” ou “insights” nossa percepção ocorre através de nossas experiências ao longo da vida, um exemplo quando criança vi uma imagem que nunca esqueci, sei lá por que, era um burro comendo em um balde, virando a página de pernas para cima era um homem de chapéu com longas costeletas, ela ficou na minha cabeça, até procurei essa imagem específica, mas achei duas semelhantes, anos depois gerou uma ideia para uma charge.



Desenhos semelhantes aos que vi na minha infância
Ou desde coisas do nosso cotidiano, quem nunca perdeu um papelzinho azul com anotações nele que não lembra e revira uma casa toda em sua procura, pode ser trágico quando é um técnico de futebol de uma seleção que esqueceu qual sua escalação original, isso fiz com o Telê Santana.

Antes de uma ideia “aparecer”, a mente precisa de matéria-prima. Essa preparação envolve:
- Conhecimento prévio: quanto mais informações, conceitos e experiências acumulamos, mais material temos para combinar de novas formas, aqui no caso a minha lembrança da infância
- Observação atenta: notar detalhes, padrões e conexões que outros ignoram. Nesse caso se insere a lembrança de que um dia perdi um palpelzinho muito importante
- Curiosidade ativa: questionar constantemente “e se…?”, “por que não…?” ou “como seria se…?”. Isso é sempre, é uma constância
Esse estágio lembra o preparo do solo para a agricultura — sem nutrientes, a semente não germina. Ou seja, leia muito se é escritor, olhe muito se for desenhista, a soma desses fatores fará com que crie uma sequência de ideias encadeadas, seu cérebro irá criar associações de ideias.
O cérebro humano não é diferente de um músculo, todo o fisicultor depois de começar não tem volta, se parar vai ser uma sequência de músculos flácidos, o cérebro não é em nada diferente, ao começar um processo criativo ele só irá se sofisticar, criar um repertório de associações que a cada dia mais e mais imagens se armazenarão em seu “HD”, aí não existirá mais o “branco criativo”.
Depois de absorver informações, o cérebro continua trabalhando nelas de forma inconsciente. Esse processo é chamado de incubação.
É comum que uma ideia surja quando não estamos pensando diretamente no problema — durante um banho, uma caminhada ou até ao acordar. Nesses momentos, conexões inéditas se formam silenciosamente. A gente até pode parar, sentar-se, caminhar, mas o cérebro não para nunca, mesmo ao vermos um filme, de repente surge uma ideia, do nada, veio de graça.
Aí então vem o conhecido insight, é o momento em que a solução ou conceito aparece de repente. É a famosa “lâmpada acendendo” sobre a cabeça.
Embora pareça mágica, a iluminação é fruto da preparação e da incubação. O cérebro reconhece uma nova combinação de elementos como útil ou interessante e a traz à consciência.
Mas mesmo que esse processo seja relativamente “abstrato”, tive em um livro que usei muito nas minhas disciplinas de roteiro o livro Da Criação ao Roteiro, de Doc Comparato, um autor brasileiro que inaugurou as minisséries da Globo, ele tem suas ideias bem consolidadas, mas o que usava em minhas aulas eram os conceitos de Lewis Herman, roteirista que elaborou a que chamamos de quadro de ideias, no qual Doc Comparato introduziu algumas modificações, que são:
Ideia Selecionada
Ideia Verbalizada
Ideia Lida (for free)
Ideia transformada
Ideia solicitada
Ideia procurada
Ideia selecionada
Esse tipo de ideia provém da nossa memória ou vivência pessoal, surge de dentro dos nossos pensamentos, do nosso passado recente ou remoto (no caso da lembrança da minha infância o desenho que vi) Uma ideia selecionada é independente de outra pessoa ou de fatores externos, vem da nossa experiência.
Ideia verbalizada
é a que surge daquilo que alguém nos conta, um caso, um comentário, um pedaço de história que ouvimos em um elevador, é uma ideia que nasce de algo que captamos no ambiente que nos rodeia.
A ideia lida (for free)
É aquilo que Lewis Herman denomina de “ideia grátis”, que encontramos ao ler um jornal, uma revista, um livro ou até em um folheto que nos tenha dado na rua. Os jornais e revistas são uma excelente fonte de ideias, lembram que falei, ler muito, observar muito cria um repertório enorme de informações que se transformarão em ideias
Ideia transformada (twist)
Uma ideia transformada é basicamente uma ideia que nasce de uma ficção, de um filme, de um livro, de uma obra de teatro ou de qualquer outra obra que possamos usar. Entre roteiristas costumamos dizer que um “autor amador copia, ao passo que um autor profissional transforma”. A transformação é a manipulação das ideias, dos temas e dos tópicos, a variação dos mitos. É importante deixar clara a diferença entre um plágio e uma ideia transformada. O plágio é a transcrição psis litteris de partes de uma obra, ao passo que uma deia transformada consiste em utilizar a mesma ideia, mas de outra maneira. Se ficou confuso tem um exemplo bem cristalino, quando James Camero recriou o Titanic, todo mundo sabia do fim da história consagrada no primeiro filme (eu vi a primeira quando adolescente e gostei mais da segunda versão), pois ele recriou de maneira fantástica.
Ideia proposta
Para mim essa é a melhor delas, é uma ideia que nos é encomendada. Um produtor propõe-nos um roteiro sobre a história de algum herói nacional, ou para um filme educativo. A partir disso vamos pensar no que iremos escrever uma obra por encomenda é um desafio, as pelo menos foi acertado um preço, e um roteirista deve ser capaz de se apaixonar por uma boa sugestão.
Ideia procurada
Uma ideia procurada é quando a encontramos por meio de um estudo feito através de uma pesquisa para saber que tipo de filme o mercado quer. Um estudo pode mostrar-nos que não existe qualquer filme de aventuras no Brasil sobre, por exemplo, o conflito entre índios e portugueses. A ideia procurada procura um vazio no mercado, pode ser um tema ainda não abordado em determinado ambiente.
O surgimento de uma ideia não é um ato isolado, mas um ciclo que envolve preparação, incubação, iluminação e verificação. Quanto mais consciente for esse processo, mais fácil se torna gerar novas soluções e criações.
Em última análise, ideias surgem quando alimentamos nossa mente, permitimos que ela processe livremente e mantemos abertura para reconhecer o momento em que algo novo se forma. Assim, transformamos o invisível do pensamento no concreto da ação.
As classificações de Lewis Herman, adaptadas por Doc Comparato, mostram que não existe apenas “um tipo” de ideia — elas podem nascer de memórias, conversas, leituras, recriações, encomendas ou pesquisas direcionadas. Reconhecer de onde cada ideia vem nos ajuda a potencializar seu uso e transformá-la em algo concreto.
Em última análise, ideias surgem quando mantemos a mente ativa, aberta e em constante diálogo com o mundo. Assim, o invisível do pensamento se converte, inevitavelmente, no visível da ação.