
A Adoração dos Reis Magos (1619), de Diego Velázquez. A interseção das linhas áureas situa-se próxima à cabeça do Menino Jesus, centro de interesse da composição.
Minha formação foi em Artes Plásticas. Por isso, disciplinas como Plástica e Composição faziam parte do currículo da graduação. A composição de um quadro era uma das minhas disciplinas preferidas, e levei esse conhecimento para o resto da vida.
A proporção áurea
Meus quadrinhos sempre tiveram na diagramação das páginas uma de suas características mais fortes, graças aos conhecimentos adquiridos nessas aulas. Mais tarde, esses mesmos princípios seriam fundamentais no meu trabalho com a diagramação de jornais.
Lembro que, quando comecei a trabalhar no Diário Catarinense, circulava uma pesquisa do Poynter Institute sobre o comportamento dos leitores diante das páginas de jornais.
A pesquisa utilizava equipamentos especiais para acompanhar os movimentos dos olhos durante a leitura. Uma das constatações era a importância das fotografias como elementos de atração imediata. Uma página precisava oferecer ao leitor um ponto de entrada, uma imagem dominante capaz de despertar seu interesse.
Outro aspecto interessante era a importância das legendas. Longe de serem elementos meramente burocráticos, elas desempenhavam um papel importante na compreensão da informação e na continuidade da leitura.
Sem conhecer inicialmente os resultados dessa pesquisa, propus à direção do jornal um curso de composição para os diagramadores, baseado nos conhecimentos que havia adquirido nas Artes Plásticas.
Para minha surpresa, muitos dos princípios clássicos de composição encontravam correspondência nas observações sobre o comportamento dos leitores.
Ao compor um quadro, o artista estabelece relações entre os elementos visuais, criando áreas de maior interesse, pontos de atração e caminhos que conduzem o olhar pela imagem.
Na página de um jornal acontece algo semelhante. Uma fotografia dominante pode funcionar como porta de entrada. A partir dela, a distribuição dos títulos, textos, imagens e espaços em branco ajuda a estabelecer um percurso visual.
Esses conceitos também estiveram presentes nas minhas aulas de Planejamento Gráfico, no curso de Jornalismo, e nas disciplinas de Design, especialmente na composição de cenários.
Entre os princípios clássicos que estudávamos estava a chamada proporção áurea, uma relação matemática conhecida há séculos e utilizada como referência em diferentes formas de composição.
É por ela que vamos começar.
O que é a proporção áurea?
Também conhecida como seção áurea, a proporção áurea é uma relação matemática entre duas partes desiguais de um segmento.
Imagine uma linha dividida em duas partes. A proporção áurea acontece quando a relação entre o comprimento total e a parte maior é igual à relação entre a parte maior e a menor.

Essa relação corresponde aproximadamente ao número 1,618, representado pela letra grega φ (phi).
Para localizar a divisão áurea de uma linha, basta dividir seu comprimento por 1,618.
Por exemplo, numa linha de 100 centímetros:
100 ÷ 1,618 = 61,8 cm
A linha ficará dividida em dois segmentos: um de 61,8 cm e outro de 38,2 cm.
Podemos fazer o mesmo com a largura e a altura de qualquer superfície, encontrando linhas de referência que ajudam a organizar os elementos de uma composição.
Aplicando a proporção áurea
Vamos experimentar com dois formatos conhecidos: uma página impressa e uma tela de computador.
1. Uma página vertical
Uma folha A4 mede 210 × 297 milímetros.
Dividindo sua largura por 1,618, encontramos aproximadamente 129,8 mm. Fazendo o mesmo com a altura, encontramos 183,6 mm.

Repetindo essas medidas a partir dos lados opostos, podemos traçar duas linhas verticais e duas horizontais.
O cruzamento dessas linhas estabelece quatro pontos de referência para a composição. Podemos escolher um deles conforme a organização que desejamos dar à página.
2. Uma página horizontal
Agora vamos utilizar uma tela de computador com resolução de 1920 × 1080 pixels.
Dividindo a largura por 1,618, encontramos aproximadamente 1186,6 pixels. Dividindo a altura pelo mesmo número, encontramos 667,5 pixels.
O procedimento é idêntico ao da página impressa. O que muda são as dimensões e a orientação da superfície.
Esses pontos podem servir de referência para posicionar uma figura, uma fotografia, um título ou qualquer outro elemento que desejamos destacar.
É importante observar que não estamos estabelecendo uma obrigação. O ponto áureo é um recurso para organizar o espaço, não uma regra que determine onde tudo deve ficar.
A proporção áurea na pintura
Ao longo da história, artistas utilizaram diferentes recursos geométricos para estruturar suas obras.
Vamos observar três pinturas: As Respigadoras, de Jean-François Millet; A Adoração dos Reis Magos, de Diego Velázquez; e um autorretrato de Rembrandt.

Nos exemplos, duas linhas dividem a superfície segundo a proporção áurea. Sua interseção estabelece um ponto de referência que podemos comparar com os elementos da pintura.
Em As Respigadoras, o cruzamento das linhas aparece próximo à figura da camponesa à direita, destacando sua posição na organização da cena.

Em A Adoração dos Reis Magos, Velázquez organiza os personagens em torno do Menino Jesus. A análise apresentada por Parramón relaciona a posição da cabeça da criança à seção áurea.
O autorretrato de Rembrandt oferece outra oportunidade para observar como a posição da figura e a distribuição das áreas claras e escuras podem contribuir para o equilíbrio da composição.
É importante distinguir a análise geométrica de uma obra da intenção documentada de seu autor. A coincidência entre uma figura e o ponto áureo não comprova, por si só, que o pintor tenha utilizado conscientemente essa proporção.
O exercício é observar as pinturas com e sem as linhas auxiliares e perceber como seus elementos se relacionam.
Uma curiosidade: a matemática na natureza
A proporção áurea tem uma relação interessante com a sequência de Fibonacci, uma sucessão de números na qual cada termo corresponde à soma dos dois anteriores:
1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89…
À medida que avançamos na sequência, a divisão de um número pelo anterior se aproxima de 1,618.
E essa relação aparece em determinados padrões de crescimento vegetal.

Organização espiral das flores do girassol. Disposição espiral das escamas de uma pinha.
Os girassóis
No centro de um girassol, as pequenas flores, que posteriormente dão origem aos frutos com sementes, formam conjuntos de espirais em sentidos opostos.
Frequentemente, o número dessas espirais corresponde a termos consecutivos da sequência de Fibonacci, como 34 e 55.
O fenômeno foi confirmado cientificamente, embora existam girassóis com outros padrões de organização.
As pinhas
Algo semelhante acontece com a disposição das escamas de muitas pinhas. Ao observar suas espirais em sentidos opostos, podemos encontrar quantidades como 8 e 13, também pertencentes à sequência de Fibonacci.
Esses padrões estão relacionados aos processos de crescimento e organização das estruturas vegetais.
Não significa que toda planta obedeça rigorosamente à proporção áurea, mas demonstra que determinadas relações matemáticas podem surgir naturalmente durante o desenvolvimento dos organismos.
Composição não é uma receita
A proporção áurea é uma ferramenta de organização visual. Conhecê-la permite experimentar relações entre formas, espaços e pontos de interesse.
Mas uma boa composição não depende da obediência a uma fórmula matemática.
O importante é compreender como os elementos se relacionam e como podemos utilizá-los para construir uma imagem capaz de atrair e conduzir o olhar.
Na próxima aula, vamos estudar outro princípio fundamental: o equilíbrio visual e a compensação de massas, demonstrando por que uma composição não precisa ser simétrica para parecer equilibrada.
