
Criar um personagem requer estudos que vão além do ato de desenhar, mas da necessidade de estudar mais sobre o que move um indivíduo em seu dia-a-dia e de quais são suas características pessoais
Embora esta categoria seja dedicada a “dicas de desenho”, é importante ressaltar que o desenho não é um processo estanque ou isolado. O ato de criar um personagem visualmente só se torna completo quando ele é dotado de uma personalidade bem definida. Observem a complexidade do nosso querido Charlie Brown, o encanto de Mafalda, ou até mesmo a crise existencial do Homem-Aranha, que se tornou o primeiro personagem de quadrinhos a enfrentar dilemas tão profundos. Em resumo, quando você estabelece uma personalidade forte para sua criação, o desenvolvimento das características físicas torna-se mais fluido, assim como a construção de bons argumentos e conflitos dramáticos. Portanto, entender que desenhar é mais do que apenas “rabiscar” é essencial. É um processo que envolve uma série de conhecimentos que conferem personalidade ao seu trabalho.
O design de personagens é essencial para a construção de narrativas dentro da indústria do entretenimento, pois serve como a base sobre a qual a história se desenvolve. Como observa Stephen Silver (2017), sem personagens, não existiriam histórias, animações, storyboards, quadrinhos ou brinquedos. Assim, os personagens são o ponto de partida do processo criativo, permitindo que se conceba ideias iniciais que formarão o alicerce de um projeto, seja ele visual ou narrativo. Eles são os protagonistas da criação, sendo a partir deles que a trama e os cenários ganham forma e significado.
A criação de personagens, no entanto, é um processo árduo e cheio de desafios. Glen Keane, renomado animador, expressa a dificuldade e a gratificação envolvidas nesse processo ao relatar sua experiência pessoal: “Criar personagens nunca foi fácil para mim. O design deles não acontece sem luta; não há uma fórmula ou atalho. Para criar o design do personagem, faço centenas de desenhos, explorando alternativas e esperando pelo momento de reconhecimento, quando vejo o rosto do personagem que estava procurando olhando de volta para mim. Esse é o momento mágico que estou sempre trabalhando para alcançar” (Keane, 1999, p. 5).
Esse “momento mágico” descrito por Keane faz referência à satisfação e à emoção que surgem quando, após muitas tentativas e erros, um personagem finalmente se revela e se torna “real”. Essa experiência de descoberta, de transitar entre diferentes opções e formas, é essencial para a construção de uma personalidade visual que ressoe com o público. A relação entre o criador e seu personagem transcende a simples criação estética, tornando-se uma conexão emocional que se estende até o espectador.
Keane também destaca que “uma das maiores recompensas do nosso ofício é saber que o apego que sentimos pelos nossos personagens se dividirá por milhares, que irão acreditar neles também” (Keane, 1999, p. 5). O design de personagens, portanto, não é apenas uma questão técnica ou estética, mas também uma jornada emocional. É nesse ponto que o trabalho do designer se torna não apenas uma criação artística, mas uma peça fundamental para a construção de uma narrativa compartilhada e vivida por um grande número de pessoas.
Esse envolvimento emocional com os personagens não se restringe a uma área específica do entretenimento, mas permeia toda a indústria. Seja no cinema, nas animações, nos jogos ou nos quadrinhos, os personagens servem como o ponto de entrada para a experiência do espectador, e sua criação envolve uma série de escolhas que vão desde o formato físico até as emoções que esses personagens evocam. Cada escolha feita no design do personagem está intimamente ligada à forma como a história será recebida e interpretada.
Para que um personagem seja bem construído, além de uma boa história e uma personalidade interessante, é necessário unir esses elementos por meio de uma representação visual que o caracterize de maneira única. Mickey, Darth Vader e Homem-Aranha são exemplos amplamente conhecidos, cujas primeiras aparições ocorreram em: 1928, 1977 (IMDB) e 1962 (Marvel Masterworks), respectivamente.

Note que, visualmente, todos esses personagens têm características bem específicas e personalidades marcantes. Para alcançar esse nível de profundidade, é necessário fazer um estudo mais profundo sobre como será a personalidade de nosso personagem, como ele se comportará e quais serão suas reações. Para isso, precisamos de mais parâmetros para nos guiar.
A criação de personagens envolve um processo complexo de construção de sua identidade e psicologia. Cada decisão tomada, desde sua aparência física até seus comportamentos e motivações, reflete não apenas a narrativa da história, mas também as emoções e atitudes que o público pode vir a experimentar. Para garantir que o personagem seja tridimensional e impactante, é fundamental compreender os diferentes tipos de atitudes e personalidades que ele pode expressar. Uma maneira eficaz de categorizar esses aspectos é por meio das classificações de atitudes e tipos de personalidade, que ajudam o criador a formar um personagem com profundidade psicológica.
Artigo escrito por Mônica Stein e Clovis Geyer para um evento em Avanca, Portugal, sobre a criação de personagem e linguagem cinematográfica em uma experiência com alunos da USFC
Tipos de Atitude
Na criação de personagens, a atitude desempenha um papel crucial, pois define como o personagem reage ao mundo ao seu redor, bem como sua relação com outros e com os eventos da trama. Segundo teorias psicológicas, como a psicologia de Jung, as atitudes podem ser classificadas da seguinte forma:
- A Sensação: Refere-se à percepção direta da realidade e à informação sobre a existência de algo. Personagens com essa atitude tendem a ser mais concretos, focando em fatos e experiências tangíveis. São muitas vezes descritos como “práticos” ou “realistas”, preferindo confiar no que pode ser visto e tocado.
- O Pensamento: Esse tipo de atitude revela a natureza racional e lógica do personagem. Personagens guiados pelo pensamento analisam as situações, tomam decisões com base na razão e no raciocínio. Geralmente associados a personagens introspectivos ou intelectuais, eles buscam explicações lógicas para o mundo ao seu redor.
- O Sentimento: Representa a forma como o personagem atribui valor a certas coisas ou experiências. Personagens guiados por esse tipo de atitude são fortemente influenciados por suas emoções e relações interpessoais. Movidos pela empatia, amor e amizade, frequentemente têm uma visão subjetiva das situações.
- A Intuição: Refere-se à capacidade do personagem de antever o futuro e perceber o que está além do evidente. Esses personagens possuem uma habilidade para captar a “atmosfera” das situações e enxergar possibilidades ainda não concretizadas. São visionários, muitas vezes guiados por um “instinto” que os leva a buscar caminhos inovadores.
Essas atitudes não são mutuamente exclusivas, e um personagem pode apresentar uma combinação delas. Compreender qual atitude predomina em um personagem ajuda a construir reações consistentes às situações que ele enfrenta e sua evolução ao longo da história.
Tipos de Personalidade – Classificação de Jung
Jung também propôs uma tipologia de personalidade que pode ser extremamente útil para criar personagens com características psicológicas bem definidas. Segundo Jung, as personalidades podem ser classificadas de acordo com sua atitude principal (introversão ou extroversão) e os quatro processos psicológicos: pensamento, sentimento, percepção e intuição.
- Introvertido vs. Extrovertido
- Introvertido: Foca sua atenção no mundo interno. Personagens introvertidos tendem a ser mais introspectivos e buscam soluções dentro de si, sendo muitas vezes mais solitários.
- Extrovertido: Voltado para o mundo externo, busca interações sociais e se alimenta da energia do ambiente. Personagens extrovertidos são adaptáveis, energéticos e mais confiantes.
- Sentimental vs. Reflexivo vs. Perceptivo vs. Intuitivo
- Sentimental: Tomam decisões com base em valores e emoções, priorizando a empatia e a conexão com os outros.
- Reflexivo: São analíticos e ponderam suas ações, refletindo profundamente antes de tomar decisões.
- Perceptivo: Reagem imediatamente ao ambiente, são flexíveis e se adaptam facilmente às mudanças.
- Intuitivo: Focam no futuro, explorando novas ideias e conceitos, com uma visão criativa além do que é evidente.
Aplicação na Criação de Personagens
Ao combinar essas classificações de atitudes e tipos de personalidade, o criador pode gerar personagens complexos, com motivações claras e comportamentos consistentes. Por exemplo, um personagem introvertido com uma atitude intuitiva pode ser um pensador profundo, com grandes ideias sobre o futuro, mas com dificuldades de se expressar no mundo externo. Já um personagem extrovertido com uma atitude de sensação pode ser prático e sociável, voltado para o mundo tangível.
Esses tipos e atitudes ajudam a compor uma base sólida para o desenvolvimento do personagem, garantindo que ele seja não apenas realista, mas também interessante, com camadas emocionais e psicológicas que capturam a atenção do público.