
Aos dezenove anos, descobri que estava longe de ser um bom desenhista.


Alguns desenhos meus da época
Quando entrei para o meu Curso de Artes na Universidade Federal de Santa Maria, já desenhava — bom, pelo menos eu achava que sim.
Não lembro a idade exata, mas sei que ganhei de minha mãe um livro — na realidade, uma bíblia! — de Renato Silva, um grande desenhista brasileiro dos anos 1950. Nesse livro, todos os tópicos relativos ao desenho estavam ali: anatomia (músculos e ossos), perspectiva (tanto de objetos quanto de escorço que é a perspectiva humana), sombra e luz, planejamento, demonstrando a diferença das dobras dos tecidos, da seda até a lã; enfim, uma obra completa.

Entrei na universidade como um bom desenhista, mas, na verdade, era um jovem com um desenho velho. Explico:
Barbarella era a antítese do meu desenho. Era moderna, com um traço arrojado, contemporâneo… tudo o que meu estilo não tinha. Ao me deparar com aquela revista fantástica, senti um cansaço enorme ao perceber que, sendo orgulhoso de um estilo velho, eu tinha um longo caminho a percorrer em busca do “traço perfeito”, um traço que ainda não encontrei até hoje.
Os desenhos do Renato Silva eram da década de 1950/60, eu vivia nos anos de 1970. Entrei na UFSM em 1974, na mesma época que surgia uma das personagens mais icônicas dos quadrinhos: Barbarella, uma série de histórias em quadrinhos para adultos, criada em 1962 pelo ilustrador e escritor francês Jean-Claude Forest. Levada às telas de cinema pelo diretor Roger Vadim em 1968, Barbarella virou um filme cult extremamente popular e transformou a atriz norte-americana Jane Fonda, que a interpretou, no símbolo sexual da época.


Quando falo sobre isso, é um alerta para quem deseja aprender a desenhar: evite beber da mesma fonte. Em um ensino solitário como o autodidatismo, é fácil cair nesse erro. Há um ditado que diz: “quem muito lê, pouco copia”. O mesmo vale para o desenho. Se você já desenha ou está começando, procure ampliar seus horizontes, observe o máximo que puder ao seu redor: HQs, ilustrações, desenhos de humor, ilustrações infantis… Você tem um mundo inteiro à sua disposição, especialmente a Internet, que pode ajudar o seu desenho a voar.
Aprenda que nosso desenho nunca está pronto. É uma pesquisa eterna, uma busca incessante, num curto tempo que temos para viver. O aprendizado nunca cessa. Cada linha, cada curva é uma tentativa de nos expressarmos melhor, de refletirmos quem somos através do traço.