
A ideia de Academia dos Pequenos Pajés não nasceu agora. Ela vem se formando há muitos anos, desde que comecei a imaginar um mundo construído sobre gigantescas vitórias-régias flutuantes.
Lembro que, ainda criança, ficava fascinado com as imagens majestosas das vitórias-régias sobre as águas dos rios. Na minha imaginação infantil, era perfeitamente possível viver sobre aquelas folhas enormes. Conhecia essas plantas apenas por fotografias e ilustrações. Nunca estive no Pantanal e, infelizmente, nunca tive a oportunidade de vê-las pessoalmente.
Mas elas continuaram vivendo nas minhas histórias. Agora, flutuam nos céus do Pantanal, gigantescas, sustentando construções, escolas e moradias de divindades e de alguns humanos privilegiados.


Construindo um universo
Muitos desafios surgiram durante o desenvolvimento da série. Um dos primeiros foi definir a indumentária dos personagens.
A nudez e a maneira de vestir variam bastante entre os povos indígenas, conforme suas tradições, regiões e circunstâncias. Entretanto, representar crianças com pouca roupa, mesmo num contexto cultural perfeitamente legítimo, tornou-se um problema inesperado na produção de imagens com inteligência artificial.
Quem já tentou pedir ao ChatGPT uma ilustração de uma criança com roupas tradicionais reduzidas sabe do que estou falando. É preciso explicar repetidamente que não existe qualquer intenção de sexualização. Uma verdadeira batalha de argumentos para conseguir uma simples ilustração!
Acabei concentrando parte da pesquisa visual nos Guarani, especialmente em elementos de sua indumentária, adornos e tradições artísticas, adaptando essas referências à linguagem fantástica da série. Aos poucos, estabeleci um figurino próprio para cada personagem, procurando preservar a coerência visual do universo.
Das Missões às ocas comunitárias
Resolvida a questão das roupas, parti para a arquitetura.


Fui buscar referências nas ruínas dos Sete Povos das Missões, nas grandes ocas comunitárias e nos detalhes de seus interiores. Reuni imagens de estruturas de madeira, coberturas vegetais, objetos, ornamentos e espaços coletivos.
A intenção nunca foi reproduzir fielmente uma aldeia indígena, mas construir um universo imaginário que dialogasse com essas referências.
Assim nasceram os grandes ambientes da Academia, seus dormitórios, espaços de convivência e construções suspensas sobre as vitórias-régias.
Portinari entra na história
Na anatomia dos personagens, resolvi revisitar a obra de Candido Portinari, especialmente sua maneira de representar mãos, pés e estruturas corporais angulosas.

Gostei do resultado. Essas características ajudaram a dar personalidade aos desenhos produzidos com inteligência artificial, que frequentemente apresentam uma aparência excessivamente padronizada.
Passei a interferir na construção anatômica, buscando uma identidade gráfica própria.
Vocês perceberão essa influência principalmente em Jaci, a deusa da noite, cuja anatomia apresenta planos mais marcados. Nas crianças, a influência é discreta, mas suficiente para diferenciá-las de outros personagens de animação.

Deuses também têm suas desavenças
Embora a história se desenvolva num Pantanal fantástico, a trama não pretende girar exclusivamente em torno da ecologia.
Naturalmente, questões ambientais aparecerão ao longo da narrativa, mas de maneira pontual, integradas às aventuras.
O centro dramático da série estará nas divindades da mitologia indígena, em suas rivalidades, desavenças, ciúmes, alianças e contradições.
E, no meio desse universo de seres poderosos, estarão os Pequenos Pajés, crianças que terão muito a aprender, mas também muito a ensinar aos próprios deuses.
A proposta é construir uma aventura com fantasia, humor, conflitos e personagens capazes de conquistar a curiosidade e a simpatia do público.
Depois de aproximadamente quinze anos amadurecendo essa ideia, finalmente comecei a dar movimento a esse universo. Os dois primeiros episódios já estão produzidos, somando mais de seis minutos de animação.
Ainda há muito trabalho pela frente. Mas aquelas vitórias-régias que eu imaginava quando criança finalmente começaram a flutuar.
A seguir, um panorama das divindades mitológicas que habitam a Academia dos Pequenos Pajés.
As divindades da Academia dos Pequenos Pajés
TUPÃ — O poder dos trovões
Associado ao trovão e às manifestações do céu em tradições tupi-guarani, Tupã tornou-se uma das figuras mais conhecidas da mitologia indígena brasileira. Sua identificação como criador supremo, muito difundida popularmente, também foi influenciada pelas interpretações dos missionários jesuítas.
Na série, Tupã ocupa a liderança da Academia, uma figura poderosa que precisa administrar não apenas os acontecimentos do mundo, mas também as divergências entre as divindades.
GUARACI — A força do Sol
Guaraci, também chamado de Coaraci em algumas versões, é associado ao Sol, à luz e à energia que sustenta a vida.
Na Academia, é apresentado como filho de Tupã, um personagem ligado à força solar, mas também sujeito às rivalidades e aos conflitos familiares que movimentam a narrativa.
JACI — A senhora da Lua
Jaci é uma figura associada à Lua, à noite e aos seus mistérios nas narrativas mitológicas de matriz tupi.
Na série, sua presença é marcada por uma personalidade própria e por uma construção visual inspirada nas formas angulosas de Candido Portinari.
RUDÁ — O amor e seus desencontros
Rudá aparece em versões divulgadas da mitologia tupi como uma figura ligada ao amor e aos sentimentos humanos. Sua caracterização varia entre as fontes e releituras.
Na Academia, oferece possibilidades para histórias envolvendo paixões, ciúmes e desentendimentos, mostrando que nem mesmo as divindades escapam das complicações afetivas.
ANHANGÁ — O espírito inquietante
Anhangá é uma figura espiritual presente em diferentes narrativas indígenas, frequentemente associada à mata, aos animais e a manifestações capazes de provocar medo ou desorientação. Nem sempre corresponde à ideia ocidental de um ser maligno.
Na série, sua natureza ambígua permite criar situações de suspense, conflitos e surpresas.
IARA — O encanto das águas
Conhecida como uma bela figura feminina das águas, Iara é uma personagem do folclore brasileiro, cuja representação atual reúne influências indígenas e europeias.
Na Academia, integra o universo das divindades e dos seres encantados, trazendo para as aventuras o fascínio e os perigos dos ambientes aquáticos.
CURUPIRA — O guardião das florestas
Uma das figuras mais conhecidas do folclore brasileiro, Curupira costuma ser representado com cabelos avermelhados e pés voltados para trás, característica que confunde aqueles que seguem suas pegadas.
Tradicionalmente associado à proteção das matas e dos animais, poderá trazer à série tanto momentos de humor quanto conflitos envolvendo o mundo natural.
Esses personagens não pretendem constituir uma representação definitiva das crenças dos povos originários. A Academia dos Pequenos Pajés é uma obra de fantasia, inspirada em diferentes narrativas mitológicas e folclóricas, com personagens reinterpretados para construir um universo ficcional próprio.
A animação completa aqui
