
Tenho carinho pela Comic Sans.
Nos “primórdios” da editoração eletrônica, era uma das fontes que colocávamos nas HQs. Os desenhos ainda eram feitos no papel, depois digitalizados e, na hora de colocar os textos nos balões, lá estava ela: Comic Sans! E era muito legal.
Claro que, com o passar dos anos, ela ficou manjada. Surgiram fontes mais orgânicas, desenhadas especialmente para quadrinhos, e os designers começaram primeiro a desvalorizá-la e depois quase a odiá-la. Acho uma injustiça. Deixa a velhinha quieta. Ela prestou bons serviços.
Hoje o problema é exatamente o contrário: temos opções demais.
Aliás, falando em fontes, houve uma época em que fui muito feliz quando deu um problema no meu computador e fiquei com apenas meia dúzia delas instaladas. Que maravilha! Não havia dúvida. Eram aquelas e pronto. Decisão tomada.
Agora estou refazendo uma HQ antiga, Entidade, e novamente me vi diante da velha pergunta: que fonte colocar nos balões?



Só que hoje escolher a letra não significa apenas encontrar algo que caiba dentro do balão. A tipografia participa do desenho. Precisa conversar com o traço, funcionar em tamanhos pequenos e conviver com gritos, pensamentos, narrações e onomatopeias.
Nas páginas de Entidade, por exemplo, o desenho é carregado de linhas, manchas de preto e hachuras. Uma fonte excessivamente limpa pareceria estrangeira dentro desse universo. Procurei então uma letra mais orgânica, com alguma irregularidade, mas que continuasse fácil de ler.
E há ainda as onomatopeias. POW! BAM! BLAM! Nesse momento, a letra deixa quase de ser texto. Ela ganha tamanho, inclinação, peso, invade o quadro e passa a fazer parte da própria ação.
No fim, talvez seja essa a graça do letreiramento nos quadrinhos: o leitor lê as palavras, mas também vê o som.

