
Na primeira matéria desta série, vimos que a palavra mangá não define uma maneira específica de desenhar. De Hokusai a Tezuka, do realismo de Lobo Solitário à precisão gráfica de Akira e à estilização contemporânea, diferentes linguagens visuais sempre conviveram nos quadrinhos japoneses.
Mas existe outra razão para dizer que mangá não é um estilo.
No Japão, os quadrinhos não constituem apenas um gênero de entretenimento. Formaram um enorme universo editorial capaz de produzir histórias para públicos, idades e interesses muito diferentes.
Do infantil ao adulto

Uma criança pode começar lendo kodomo, enquanto adolescentes encontram revistas tradicionalmente classificadas como shōnen ou shōjo. Para os adultos existem outras segmentações, como seinen e josei.
Essas palavras, porém, não determinam necessariamente o assunto da história. Indicam principalmente o público para o qual determinada publicação foi concebida.
Um shōnen pode falar de esporte, aventura, fantasia ou vida escolar. Um seinen pode ser policial, histórico, político, cotidiano ou ficção científica.
É uma diferença importante: público e gênero não são a mesma coisa.
Amor também tem muitas histórias

Essa diversidade aparece igualmente na representação dos relacionamentos.
O yuri apresenta relações afetivas ou românticas entre personagens femininas. O Boys’ Love (BL) trabalha relações amorosas entre personagens masculinos e possui um enorme mercado editorial próprio.
Há ainda quadrinhos eróticos e explicitamente sexuais. No Ocidente, tornou-se comum chamar esse material de hentai, embora no Japão a palavra tenha significado e uso mais amplos e não funcione exatamente como uma classificação editorial equivalente a shōnen ou seinen.
O mangá consegue, portanto, dirigir-se a públicos muito específicos sem que todos precisem procurar representação dentro das mesmas histórias.
Do terror à cozinha

E praticamente qualquer assunto pode virar mangá.
O horror manga — ou horā manga — construiu uma tradição própria, indo do grotesco e sobrenatural ao terror psicológico. Autores como Kazuo Umezz e, mais recentemente, Junji Ito transformaram o gênero em uma das vertentes japonesas mais conhecidas internacionalmente.
Existem também mangás de esporte, culinária, medicina, música, negócios, agricultura, história, samurais, ficção científica, robôs gigantes e histórias sobre o cotidiano.
Há até uma expressão bastante útil para estas últimas: slice of life, histórias nas quais acontecimentos aparentemente pequenos da vida diária tornam-se o centro da narrativa.
Talvez essa capacidade de segmentação ajude a explicar a extraordinária presença dos quadrinhos na cultura japonesa: não existe apenas um mangá para todos. Existem mangás para muitos leitores diferentes.
Afinal, o que é mangá?
Voltamos então ao título desta matéria.
Mangá não é uma determinada forma de desenhar. Também não é aventura, romance, ficção científica ou histórias de adolescentes com olhos enormes.
É um meio de expressão e uma tradição editorial capazes de acomodar inúmeras linguagens visuais, gêneros e públicos.
E talvez seja justamente essa diversidade que tenha permitido aos quadrinhos ocupar um espaço tão amplo na sociedade japonesa.
Um pequeno mapa do mangá
| Nome | Principal referência |
|---|---|
| Kodomo | Crianças |
| Shōnen | Meninos e adolescentes |
| Shōjo | Meninas e adolescentes |
| Seinen | Homens adultos |
| Josei | Mulheres adultas |
| Yuri | Relações afetivas/românticas entre mulheres |
| Boys’ Love (BL) | Relações afetivas/românticas entre homens |
| Horror / Horā manga | Terror, sobrenatural, grotesco e psicológico |
| Slice of life | Cotidiano e vida diária |
| Sports manga | Esportes |
| Mecha | Robôs, máquinas e ficção tecnológica |
| Hentai* | Termo usado sobretudo no Ocidente para mangá sexualmente explícito |
* “Hentai” merece cautela: no Japão, a palavra não corresponde exatamente à categoria editorial que o termo passou a designar no Ocidente.
Esta série continua. Depois de observarmos como o Japão construiu um universo de quadrinhos capaz de abrigar públicos e linguagens tão diferentes, atravessaremos agora o mar para a Coreia.
No próximo artigo: manhwa — e como a tela do celular começou a mudar os quadrinhos.
