
Há alguns anos compro as revistas da Editora Lorentz: Alvar Mayor, Avrack e, mais recentemente, Dylan Dog. De todas elas sempre fui fã, em especial desta última. E, a cada edição, invejava as artes em preto e branco. Mas desta vez me preparei: após concluir O Senhor do Tempo, resolvi refazer uma HQ que produzi há muitos anos e desenhá-la em preto e branco, assim como republicar outras obras, algumas com mais de quarenta anos de vida, que retomei agora
A cor, nos dias de hoje, é a nossa rotina. Sim, eu sou do tempo da TV em preto e branco, do cinema em preto e branco e das revistinhas em preto e branco. Tive o privilégio de comprar TODAS as HQs do Super-Homem, Tarzan, Homem-Aranha e Demolidor em preto e branco, lançadas pela Ebal (Editora Brasil-América), que trabalhava com impressoras offset planas e folhas de 96 x 66 cm. Era um processo bem limitado e que acabou perdendo espaço para a Editora Abril e suas rotativas, que permitiam edições coloridas em altas tiragens. O mundo começava a se fazer em cores.



Desenhos da HQ Dylan Dog, Will EIsner e José Ortiz
Hoje o mundo é colorido: TVs planas de inúmeras polegadas, computadores, tablets, celulares, jornais e quadrinhos. Mas, se no mundo digital ser preto e branco ou colorido tanto faz — o custo é praticamente o mesmo —, no mundo analógico a diferença é muito grande. Para imprimir em preto e branco, o papel passa apenas uma vez pela impressora. Para imprimir colorido, passa quatro vezes. É a combinação dessas quatro cores básicas que cria, magicamente, milhões de tonalidades através da retícula.
Além disso, a impressão colorida exige papéis de maior qualidade, geralmente gessados, tratados e muito lisos para garantir a melhor nitidez possível. Tudo isso encarece significativamente o produto final.
E, tanto em cores quanto em preto e branco, o recado é o mesmo: o roteiro, a ideia e a narrativa chegam ao leitor.
Mas não seria justo dizer que o preto e branco existe apenas porque é mais barato. Revendo alguns quadrinhos, percebo que o desenho em preto e branco possui uma força muito particular. Ele exige do artista domínio da luz e da sombra, precisão no traço e uma compreensão muito clara da composição. Sem a cor para orientar o olhar do leitor, cada área preta e cada área branca precisam cumprir uma função narrativa.

No exemplo acima:
O teto preto parece “descer” visualmente.
A sala parece menor e mais pesada.
O centro de gravidade da composição sobe.
O observador sente uma leve sensação de compressão do espaço.
Mesmo sem alterar um único móvel, a percepção do ambiente muda completamente.
O preto e branco não apenas “colore” os objetos; ela altera nossa percepção do espaço. Um teto escuro parece mais baixo, uma parede escura parece mais próxima e um piso escuro tende a transmitir maior estabilidade. O preto e o branco não representam apenas valores tonais, mas também relações psicológicas e espaciais.
Lembro de muitos autores — impossível citar todos —, mas alguns dos gênios do preto e branco foram o espanhol José Ortiz, Will Eisner em The Spirit, Hal Foster em obras como Príncipe Valente e, entre tantos outros, os inúmeros desenhistas que deram vida à obra de Sclavi em Dylan Dog, série da qual sou grande admirador pelo seu terror elegante e inteligente, capaz de encantar inclusive muitos intelectuais.
Dizer que uma HQ é “apenas preto e branco” é desprezar suas inúmeras possibilidades. Os meios-tons podem surgir através das hachuras, da trama de traços que cria soluções de cinza e permite transições suaves entre o preto e o branco. Mais recentemente, programas como o Photoshop passaram a simular as retículas tão utilizadas nos anos 1970, quando muitos desenhistas já aplicavam essas texturas diretamente nos originais para criar sombras mais sutis e atmosferas complexas.
Mas a força do preto e branco não está apenas no desenho. Ela também está na composição. Grandes massas pretas podem conduzir o olhar do leitor pela página, criar tensão ou sugerir profundidade. Áreas brancas funcionam como respiros visuais, destacando personagens e elementos importantes da narrativa. Em muitos casos, a distribuição equilibrada dessas massas gráficas é tão importante quanto o próprio desenho.

No preto e branco, o preto é profundidade e o branco é primeiro plano. O preto pode reduzir um espaço e o branco ampliá-lo. O contraste é simples, como um yin e yang em perfeito equilíbrio. Dependendo da solução adotada pelo desenhista, uma massa preta pode parecer pesada, ameaçadora ou elegante. A composição parece simples, mas justamente por essa simplicidade torna-se sofisticada.
Durante anos desenhei em preto e branco. Nem sei quantas charges produzi nesse período. E agora, ao retomar essa linguagem, percebo o quanto eu gostava dela. Lembro que era muito bom desenhar em preto e branco e voltei a fazê-lo com enorme satisfação. O resultado tem me agradado bastante.
Vem aí uma nova HQ em preto e branco. Às vezes, para seguir em frente, é preciso voltar às origens.






Desenhos da próxima HQ que estou fazendo
