
Marina Pinho, a nossa Nina, é formada em Design de Animação pela UFSC. Em seu Projeto de Conclusão de Curso apresentou, junto com a Dani Bragaglia, o curta animado Buble, que classificou para a mostra de Animação Anima Mundi. Tem um trabalho muito criativo e excepcionalmente abrangente, indo da ilustração à animação; da criação à direção de projetos. Nesses quinze anos se tornou uma profissional completa. E ela conversa com a gente um pouquinho.

CG – Quando você fez a opção pela animação e por quê 2D?
NP – Oi, Clóvis, muito obrigada por me convidar para falar sobre animação! Muito do por que eu tô trabalhando com animação se deve a ti, por sempre pegar no meu pé para melhorar meu desenho e me indicar para trabalhar como trainee em Blumenau na minha primeira série de animação.
Quando eu comecei na faculdade eu nem sabia que animação seria uma possibilidade de carreira. Como você sabe, eu entrei para Design Gráfico na UFSC e só depois mudei para fazer animação. Eu gosto de brincar que eu não escolhi animação para trabalhar, ela me escolheu.
CG – Em sua vida profissional, tem conseguido trabalhar em produções próprias ou apenas sob demanda, trabalhos de terceiros e em empresas?
NP – Eu tento sempre encaixar alguma coisa autoral no meu dia a dia. Às vezes é difícil por conta das demandas externas. Tenho alguns projetos pessoais que vou tocando aos poucos, alguns são mais despretensiosos, que eu tenho só pra me divertir, como o caso da “mini Nina”, que eu criei para ser fácil de desenhar. Assim consigo fazer algumas tirinhas aqui e ali quando der vontade. Alguns eu tenho vontade de fazer uma produção mais séria, para tentar inscrever em editais e tal. Mas o grosso do meu trabalho é prestação de serviço para estúdios: tenho feito bastante séries 2D, curtas e alguns jogos também. Ultimamente tenho focado em direção de animação e de arte, apesar de ainda gostar de animar.
CG – Em quantos estúdios já trabalhou em sua vida profissional?
NP – Nossa, nem sei exatamente em quantos estúdios eu já trabalhei. Já fazem quase 15 anos que trabalho com animação, e por mais que eu tenha ficado fixa em dois estúdios a maior parte do tempo, eu sempre fiz trabalhos por fora e estou há um tempo trabalhando por conta. Devo ter trabalhado com uns 15 estúdios, de diferentes tamanhos, e alguns internacionais.
CG – Poderia falar de alguns trabalhos que mais gostou de participar?
NP – Olha, vou falar que eu gosto da maioria dos trabalhos que fiz. Vou dizer que foram poucos os que eu não gostei de trabalhar, e mesmo esses me fizeram aprender bastante. Claro que alguns foram mais marcantes na minha carreira. Peixonauta é uma série que eu tenho um carinho muito grande, tanto por ter sido a primeira série em que trabalhei, que me abriu muitas portas, quanto pela equipe com quem trabalhei, que foi muito parceira — tenho amigos dessa época que trago no peito até hoje. O Mundo da Hello Kitty também é uma série que eu tenho muito carinho, porque foi com ela que comecei a dar meus primeiros passos como diretora. Atualmente tenho iniciado meus primeiros passos na animação 3D. Assim que der te mostro alguma coisa, mas agora não posso mostrar nada.
CG – Falando com a Vanessa, que trabalha no Canadá, ela comentou que lá o animador pode se considerar como um “artista”, ou seja, os trabalhos aparecem mais por produção específica — produção nova, emprego novo — existindo uma grande rotatividade. No Brasil acontece a mesma coisa? Ou culturalmente tendemos a ter mais estabilidade?
NP – O mercado de animação não é fácil pra ninguém, nem pro animador e nem pras demais áreas da produção. Claro que eu não tenho uma perspectiva global de como estão as coisas, só sei o que eu vejo trabalhando e o que meus colegas me relatam. Eu vejo que existem poucos estúdios que contratam pessoas fixas, e quando contratam é quase sempre como PJ e apenas uma parte da equipe. Mas eu sinto que a rotatividade no exterior é um pouco maior que no Brasil, sim. Tenho alguns amigos talentosíssimos que trabalham na Europa e estão sempre procurando trabalho quando acaba o projeto, e eu sinto que isso tem deixado as pessoas um pouco desgastadas com a profissão.
CG – Percebo que em sua carreira você atingiu um estágio bem legal, se dedicando mais à direção. Como aconteceu esse processo?
NP – Nem sei direito como falar sobre isso em poucas linhas, mas acho que tive um pouco de sorte de estar no lugar certo na hora certa. Tive algumas oportunidades que aproveitei bem. Estudei bastante pra melhorar minhas habilidades, tanto técnicas quanto de gestão de pessoas, que é muito importante pros cargos de direção. Também estudei bastante como me comunicar melhor, porque sentia que isso era essencial. Tive sorte de ter encontrado pessoas incríveis na minha jornada, que acreditaram em mim e me incentivaram a continuar. Você foi uma dessas pessoas, Clóvis, que me indicou pra Belli e sempre criticou meu trabalho para melhorar. Também o pessoal da Belli, que me deu oportunidade desde cedo de fazer parte do processo de seleção, avaliando os portfólios dos candidatos e sendo supervisora de animação dos novatos (quando eu ainda era novata também, rs). O pessoal da Plot também, que me deu oportunidade de desenvolver melhor essa parte da direção. Tanto o Arthur, que me convidou pra ser assistente de direção, quanto a Luiza, que foi uma liderança feminina importante que eu tive e que me incentivou a continuar na direção.
Dicas da Nina para criação de um Storyboard
CG – A IA já está afetando o mercado de trabalho ou ainda é cedo para avaliar?
NP – Não sei se está relacionado com a IA, com a instabilidade política global ou com a mudança no padrão de consumo de conteúdos, mas tenho percebido o mercado de animação mais desaquecido nesses últimos anos. Tenho visto alguns layoffs frequentes e as contratações deram uma estagnada.
A IA já era usada nas ferramentas de trabalho (softwares) há bastante tempo e realmente ajuda a fazer as coisas de forma mais rápida. Mas a IA generativa teve uma campanha de marketing muito forte, fazendo parecer quase mágica, porque realmente parece que tudo ficou muito fácil e qualquer pessoa se sente especialista procurando informações no ChatGPT, por mais que tecnicamente tenha várias falhas. Não vou nem entrar em questões éticas, direitos autorais e impactos ambientais, porque não é minha área de estudo — teria que me aprofundar um pouco mais para falar sobre isso.
Sei que alguns estúdios estão usando IA para criar de tudo, desde roteiros até a animação final. Pessoalmente, eu ainda acho que fica uma estética sem alma, mas se o público aceitar bem, esse pode ser o futuro do mercado.
Eu acredito que o espaço dos estúdios indies sempre vai existir, com criações mais artesanais e cuidadosas para festivais, mas o mercado de massa eu temo que sofrerá bastante.
