
Criador e criatura dividem o mesmo espaço: a metalinguagem de Animando rompe a fronteira entre quem anima e o que é animado.
Realizado no início dos anos 1980, Animando é um curta-metragem que funciona como uma verdadeira declaração de amor à animação. Sem diálogos e com estrutura simples, o filme acompanha um animador — o próprio Marcos Magalhães — em sua mesa de trabalho, criando um personagem que pouco a pouco ganha vida.
Esta animação, depois que a descobri, era praticamente a aula inaugural da disciplina de Animação 2D, eu a projetava e ia pausando e explicando cada processo, na era digital eram ferramentas que os alunos só veriam em algum museu ou imagens catadas na internet, um material precioso que me remetiam aos primórdios da animação que eu havia vivido. Um material excepcional. Uma animação que mais do que contar uma história convencional, Animando revela o processo criativo da animação em si. O curta se constrói como uma demonstração prática, quase pedagógica, das inúmeras possibilidades técnicas do cinema de animação, transformando o ato de animar em espetáculo. O espectador não vê apenas o resultado final, mas acompanha o caminho, os testes, as mudanças de linguagem e os limites do próprio desenho em movimento.


Imagem 1 O animador diante da mesa de trabalho: o ponto de partida de Animando, onde o gesto manual e o desenho dão origem ao movimento.
Imagem 2 O personagem em transformação: Marcos Magalhães explora diferentes estilos e técnicas, revelando a animação como um campo de experimentação contínua.
À medida que o personagem se movimenta, o filme rompe a fronteira entre criador e criatura. O animador interage com seu desenho, e a animação passa a comentar sobre ela mesma, numa metalinguagem simples, lúdica e extremamente eficaz. Esse jogo entre controle e liberdade reflete uma das ideias centrais do curta: a animação como território de experimentação, onde técnica e imaginação caminham juntas.
Por essa razão, Animando se tornou uma obra recorrente em escolas, cursos e festivais de animação, funcionando tanto como introdução ao meio quanto como reflexão sobre a essência do movimento animado.
Marcos Magalhães
Marcos Magalhães é um dos nomes fundamentais da animação brasileira. Animador, diretor, professor e produtor cultural, ganhou projeção internacional com o curta Meow!, vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes em 1982 — um marco histórico para o cinema de animação do Brasil.
Além de sua produção autoral, Magalhães teve papel decisivo na formação de gerações de animadores, atuando como educador e incentivador da linguagem animada. É também cofundador do Festival Anima Mundi, criado em 1993, que se consolidou como um dos maiores e mais importantes festivais de animação do mundo, com forte impacto cultural e pedagógico.
No campo da televisão, é conhecido por criar personagens icônicos, como o ratinho de massinha do programa Castelo Rá-Tim-Bum, exibido pela TV Cultura. Sua obra transita entre o experimental, o didático e o lúdico, sempre com atenção especial ao processo criativo e às múltiplas formas de animar.
Técnicas de animação apresentadas em Animando
| Técnica | Descrição | Como aparece no curta |
| Desenho animado tradicional | Sequência de desenhos feitos à mão, fotografados quadro a quadro | Base inicial do filme, mostrando o animador criando o personagem no papel |
| Animação sobre papel (flipbook) | Ilusão de movimento ao folhear desenhos sucessivos | Evoca o princípio mais básico da animação |
| Metalinguagem animada | A animação reflete sobre si mesma | O personagem interage com o animador e com o processo de criação |
| Animação experimental | Uso livre de técnicas e materiais | O curta muda de estilo ao longo do tempo, sem compromisso narrativo clássico |
| Interação criador-criatura | O animador participa da cena | Rompe a quarta parede e transforma o animador em personagem |
| Transformação gráfica | Alteração constante da forma e do estilo do desenho | O personagem se modifica conforme a técnica muda |
| Animação didática | Uso pedagógico da linguagem animada | O filme funciona como introdução visual às técnicas de animação |
| Animação sem diálogos | Comunicação apenas por imagem e movimento | Reforça a universalidade da linguagem visual |
