
Lançado em 2020, Wood & Stock — Sexo, Orégano e Rock’n’roll leva para o cinema de animação uma das duplas mais emblemáticas dos quadrinhos brasileiros criadas por Angeli. O filme transpõe para a tela o humor anárquico, crítico e contracultural que marcou gerações de leitores desde o surgimento dos personagens, ainda nos anos 1980.

Wood e Stock vivem à margem da sociedade “produtiva”: são dois ex-hippies envelhecidos, desajustados e permanentemente em conflito com o mundo moderno. A narrativa do longa é episódica, quase como uma sequência de tiras costuradas, refletindo a origem do material e preservando o ritmo fragmentado e sarcástico dos quadrinhos. Drogas leves, rock, precariedade financeira e desencanto político aparecem não como apologia, mas como comentário irônico sobre o fracasso das utopias de uma geração.
Visualmente, a animação opta por respeitar o traço característico de Angeli, mantendo a simplicidade gráfica, os personagens estilizados e a economia de movimentos. Essa escolha estética reforça o caráter autoral da obra e evita a padronização típica de animações mais comerciais, aproximando o filme do espírito do quadrinho underground que lhe deu origem.
O humor é o principal motor do filme, mas não se trata de uma comédia fácil. Wood & Stock aposta em um riso desconfortável, muitas vezes melancólico, que expõe contradições sociais, crises existenciais e a sensação de deslocamento diante de um mundo cada vez mais pragmático e conservador. Nesse sentido, a animação dialoga diretamente com o Brasil contemporâneo, mesmo partindo de personagens criados décadas antes.
Sexo, Orégano e Rock’n’roll também se destaca por mostrar que a animação brasileira pode explorar caminhos menos infantis e mais autorais, abrindo espaço para narrativas voltadas ao público adulto e para adaptações de quadrinhos que não se encaixam nos modelos tradicionais de mercado.
