
No ano passado me deparei com duas HQs que me impactaram profundamente por tratarem do mesmo tema — a morte — de maneiras radicalmente diferentes. A primeira foi Karmen, de Guillem March, publicada no Brasil pela DarkSide Books. Mesmo não sendo uma edição recente, é daquelas obras feitas com “alma”, que ficam e não pedem pressa na leitura.

Ao encontrar Dormindo entre Cadáveres, de Luis Gonçalves, com desenhos de Felipe Parucci, a comparação foi inevitável. Aqui, a morte é brutal, fruto de uma pandemia mundial, sem glamour ou transcendência. O indivíduo vira estatística, a vida se apaga sem rito ou consolo. O texto é seco e direto, e o traço em preto e branco de Parucci — forte, expressivo e cheio de personalidade — reforça essa sensação de desumanização.
Karmen é uma graphic novel de Guillem March (roteiro e arte), publicada no Brasil pela DarkSide Books. A história parte de uma ideia simples e poderosa: Karmen é a personificação da Morte, mas não no sentido sombrio tradicional. Ela surge curiosa, empática, quase ingênua, acompanhando pessoas em momentos-limite de suas vidas.
O grande charme da HQ está no tom delicado e humano. Em vez de violência ou grandiloquência, March constrói uma narrativa sobre empatia, escolhas, solidão e a beleza frágil de estar vivo.
Visualmente, a arte é elegante e expressiva, com forte uso de enquadramentos cinematográficos e uma paleta que reforça o clima melancólico sem se tornar pesada. Tudo conversa muito bem com o texto — nada sobra, nada falta.
Karmen fala de morte, sim, mas sobretudo fala de vida. É uma HQ sensível, silenciosa em muitos momentos e, por isso mesmo, muito poderosa. Daquelas que a DarkSide publica com precisão cirúrgica em seu catálogo.



Enquanto Karmen trata a morte com delicadeza, quase como um gesto de cuidado — uma presença silenciosa que observa, escuta e acolhe —, Dormindo entre Cadáveres vai para o extremo oposto: a morte sem rosto, sem poesia, sem rito. A morte industrializada.
O contraste entre as duas obras é poderoso justamente por tratar do mesmo tema sob perspectivas radicalmente diferentes. Enquanto Karmen humaniza a morte, Dormindo entre Cadáveres denuncia sua desumanização. Uma acolhe, a outra confronta. Juntas, mostram como a HQ contemporânea é capaz de explorar a morte tanto como experiência íntima quanto como tragédia coletiva.
