
A segunda grande revolução tecnológica do jornalismo aconteceu na década de 1980, com a chegada dos computadores gráficos e da editoração eletrônica. Foi uma mudança profunda que afetou tanto as redações quanto o setor industrial dos jornais — provocando desemprego em algumas funções tradicionais, mas também impulsionando a mídia impressa a um novo patamar de qualidade e profissionalismo.
Naquela época, eu tinha cerca de 30 anos e acumulava mais de 12 anos de experiência trabalhando exclusivamente com ferramentas analógicas: aquarela, guache, nanquim, réguas, esquadros, pincéis e pranchetas. De repente, me vi diante de terminais conectados a um mainframe, usados apenas para formatação de texto, com os icônicos monitores de fósforo verde — as famosas “telas verdes” que marcavam a entrada definitiva da informática nas redações.

O fim de funções tradicionais
A estrutura de um jornal convencional dependia de uma cadeia de profissionais especializados: digitadores, revisores, montadores de página, operadores de fotolito e técnicos de laboratório fotográfico. Com a digitalização, muitas dessas funções começaram a desaparecer.
O Diário Catarinense, por exemplo, por ser um jornal novo, não promoveu demissões em massa, mas já nasceu eliminando funções como digitadores e revisores. Outros jornais, ao migrarem para sistemas digitais, substituíram gradualmente as antigas funções de copistas.

Com a evolução dos computadores pessoais — especialmente os Macintosh e os PCs — e o surgimento de softwares gráficos como Aldus PageMaker (1985), QuarkXPress (1987), Adobe Illustrator (1987) e CorelDRAW (1989), a composição manual de páginas tornou-se obsoleta. Montadores de fotolito e diagramadores tradicionais foram substituídos por processos digitais.
Nos laboratórios fotográficos, a transição das câmeras analógicas para sistemas digitais eliminou atividades como revelação de filmes e ampliação fotográfica. A captura e o tratamento de imagens passaram a ser feitos diretamente no computador, reduzindo etapas e acelerando a produção.
Os anos dourados da mídia impressa
Paradoxalmente, enquanto algumas funções desapareciam, a mídia impressa entrava em um de seus períodos mais prósperos.
O lançamento do USA Today, em 1982, marcou uma revolução estética no jornalismo. Distribuído nacionalmente nos Estados Unidos, o jornal adotou um design moderno e consolidou o uso da infografia como linguagem jornalística. Um exemplo marcante foi a cobertura do desastre da nave Challenger, em 1986, quando o jornal publicou um infográfico detalhado no dia seguinte ao acidente — referência mundial na época.

Esse modelo visual influenciou diretamente o Brasil. A RBS expandia sua rede de jornais, implantando o Diário Catarinense e adquirindo títulos importantes no Sul do país. Em Santa Catarina, a Adjori reunia cerca de 280 jornais associados, evidenciando a força da imprensa regional.
No cenário nacional, grandes jornais atingiam tiragens históricas. A Folha de S. Paulo ultrapassava 1 milhão de exemplares nos finais de semana, impulsionada por estratégias de marketing como coleções editoriais. O Estado de S. Paulo e o Jornal do Brasil também viviam fases de grande relevância editorial.
Ao mesmo tempo, os computadores democratizaram a produção gráfica: pequenas equipes passaram a produzir jornais de bairro e publicações independentes com custos muito menores.
Reinvenção profissional
Nos departamentos de arte — onde eu trabalhava — adaptar-se era questão de sobrevivência. Foi necessário aprender rapidamente novas ferramentas como Adobe Photoshop (que nas primeiras versões tinha apenas um comando de desfazer), QuarkXPress, Aldus FreeHand e o próprio sistema operacional do Macintosh.
Essa adaptação representou mais do que aprendizado técnico: foi uma reinvenção profissional completa.
Tecnologia: perda ou evolução?
A tecnologia eliminou postos de trabalho tradicionais, mas também:
- criou novas especializações;
- elevou o padrão visual dos jornais;
- acelerou processos editoriais;
- ampliou a circulação de informação;
- preparou o terreno para a revolução seguinte: a internet.
Em vez de destruir o jornalismo, a digitalização reconfigurou a profissão, tornando-a mais integrada, visual e eficiente.
Box de curiosidades
• O Photoshop 1.0 (1990) permitia apenas um nível de undo. Errar significava refazer o trabalho.
• O USA Today foi um dos primeiros jornais a usar cores de forma sistemática em todas as páginas.
• O PageMaker é considerado o software que inaugurou oficialmente a era da editoração eletrônica.
• Nos anos 1980, muitas redações funcionavam em sistemas híbridos, misturando processos digitais e analógicos por vários anos.
Linha do tempo da revolução digital
1982 — Lançamento do USA Today
1984 — Popularização do Macintosh nas áreas gráficas
1985 — Aldus PageMaker inaugura a editoração eletrônica
1987 — QuarkXPress e Illustrator redefinem o design editorial
1989 — CorelDRAW amplia o design gráfico nos PCs
Início dos anos 1990 — Consolidação da fotografia digital
