
O domínio .com.br começou a ser utilizado no Brasil logo após a criação do registro .br, estabelecido em 18 de abril de 1989. Ali praticamente começava a internet brasileira. De lá para cá, em quase quarenta anos, quem viveu esse período assistiu a mudanças e revoluções que, no passado, levaram séculos para acontecer.

Mais uma vez, a velocidade da tecnologia atropelou sistemas consolidados. A imprensa tinha sua metodologia cristalizada: era assim que a notícia acontecia e os jornais a reproduziam diariamente, variando projetos gráficos, discutindo linguagens, alternando entre textos curtos e longos e organizando matérias correlatas — tudo dentro de um modelo editorado e impresso. Então surge a internet, com a notícia instantânea e em tempo real, desmontando a lógica das edições com data e hora previstas para impressão. Iria gerar desemprego? Sim. Mas qual seria o custo dessa transformação?
O próprio processo industrial já vinha eliminando etapas como laboratórios, montagem e fotolitagem, comprimindo a cadeia entre redação e circulação. A internet acelera esse movimento e praticamente extingue essas fases
A ruptura do modelo impresso
Passados tantos anos, o reflexo é visível: jornais desapareceram. Já escrevi sobre isso em outro texto. O Diário Catarinense, nos anos 1990, alcançava tiragens de 80 a 100 mil exemplares nos fins de semana; hoje é uma revista semanal distribuída aos sábados. Em Santa Catarina, o único jornal de grande porte que permanece é o Notícias do Dia (ND).
Essa transformação não é apenas perceptiva — ela também aparece nos números. O consumo de informação migrou de forma decisiva para o ambiente digital.
Transformações no jornalismo: impresso × digital
| Indicador | Era impressa predominante | Cenário digital atual |
| Leitura de jornais impressos | Meio dominante de informação | Cerca de 10% da população lê impressos regularmente |
| Consumo de notícias online | Inexistente | Aproximadamente 78% se informam pela internet |
| Veículos de mídia | Predomínio de jornais físicos | Fechamento de impressos e crescimento de portais digitais |
| Emprego no jornalismo | Concentrado em redações tradicionais | Queda em postos tradicionais e crescimento em funções digitais |
| Receita do setor | Baseada em circulação e publicidade impressa | Expansão de modelos digitais e institucionais |
Os dados mostram que o suporte mudou radicalmente. O papel perdeu centralidade, mas a necessidade de informação permaneceu — e se expandiu.
O mercado se reinventa
Mas os empregos desapareceram? Não. Surgiram novas frentes. A imprensa se redefiniu com o aparecimento dos portais: o UOL, ligado à Folha de S.Paulo, foi pioneiro; o Terra nasceu diretamente para a web. Houve também iniciativas regionais, como a Matrix, em Santa Catarina (hoje extinta), e o ZAZ, da RBS. As empresas de comunicação se reinventaram: a Globo criou seu portal e o jornalismo migrou para o ambiente digital.

O Portal Terra, primeiro grande portal que nasceu para a Internet
Paralelamente, instituições públicas e privadas passaram a criar seus próprios portais — governos estaduais, autarquias e entidades como a FIESC (Federação das Indústrias de Santa Catarina). Com isso, jornalistas passaram a ser requisitados para desenvolver comunicação institucional em sites de empresas, municípios, secretarias de turismo e órgãos como a Emater. Se um mercado se fechava, abriam-se diversas possibilidades em outras frentes.

O que desapareceu não foi o jornalismo, mas um modelo específico de produção. Em seu lugar surgiram novas especializações: comunicação digital, produção multimídia, gestão de conteúdo e jornalismo institucional.
A sala de aula e a transição digital
Nesse período, comecei a lecionar na Universidade Federal de Santa Catarina. Entrei na UFSC em 1996, aprovado em concurso para a área gráfica. Em 1999, percebendo a nova tendência, passei a estudar internet e, em 2000, criei a disciplina Webdesign Aplicado ao Jornalismo, onde desenvolvi um CD com o ensino do Webdesign (capa ao lado) pois sabia que os alunos precisavam dominar essa tecnologia emergente. Muitos deles jamais trabalharam em redações tradicionais: seus primeiros empregos já foram no ambiente online.
Na UFSC também ensinei infografia jornalística utilizando o Macromedia Flash, que permitia interação com o usuário em produtos institucionais. Na época, jornalistas ainda dependiam de programadores em PHP para criar sites dinâmicos. Isso mudou com o surgimento dos CMS (Content Management Systems) — sistemas de gestão de conteúdo que permitem criar, editar e publicar material online sem necessidade de conhecimentos profundos de programação. Essas ferramentas democratizaram a presença digital.
Confesso que aprender essa nova tecnologia foi um desafio, mas compreendi sua importância para a formação dos alunos e para a nova lógica do jornalismo online.
O que realmente mudou
A internet não destruiu o jornalismo — ela mudou seu suporte, sua velocidade e sua lógica de produção. O mercado se deslocou em vez de desaparecer. Profissionais que se adaptaram encontraram novas oportunidades em portais, comunicação institucional e mídia digital.
Se por um lado a internet abalou profundamente a indústria dos jornais impressos, por outro abriu um campo vasto de possibilidades. A história recente mostra que a tecnologia não elimina necessariamente profissões: ela as transforma. E o jornalismo, longe de acabar, continua se reinventando junto com os meios que o sustentam.
