
Cada vez que recebo as publicações de Dylan Dog, da Editora Lorentz, entro em crise existencial. Explico: há trinta anos desenho praticamente no computador. Digamos que 95% do que tenho feito é digital, salvo raras caricaturas e uma HQ que tentei fazer de forma analógica — senti uma falta absurda do “Ctrl Z” e voltei correndo para o Photoshop.

Durante a pandemia, em aulas remotas, desenhei bastante em papel. Instalei uma webcam sobre a minha mesa e demonstrava para os alunos como se usava nanquim, os variados tipos de grafite, esfuminho, a técnica da aguada e um pouco de aquarela. Mas só. Lendo a HQ, vendo aquelas páginas formadas por manchas de preto e branco em contraste com o papel, quase sinto o cheiro do nanquim. Cheguei até a adaptar a minha mesa de trabalho para transformá-la em uma prancheta e fiz uma caricatura de um sobrinho-neto com nanquim, pincel e canetinhas, inaugurando o novo espaço.
Mas não são apenas os desenhos em preto e branco que me atraem. Tenho um grande amigo, ex-colega de jornal da época em que eu trabalhava no Diário Catarinense, o Ari de Goes, que é um aquarelista maravilhoso. Eu o sigo e gosto muito de ver suas aquarelas — agora não só manchas em preto e branco, mas manchas de cor, pinceladas precisas na captura da luz e das formas. E, nas redes sociais, literalmente quem conta um ponto aumenta outro, ou, no fio da meada, as malhas vão se formando. Terminei me deparando com muitos aquarelistas chineses (um dia vou entrar em contato com eles e pedir autorização para mostrar as pinturas deles aqui), com trabalhos lindíssimos, evidentemente de outra cultura, retratando paisagens que jamais chegariam até mim se não fossem as suas pinturas.



Aquarelas de Ari de Goes que atualmente está na Itália
Percebi que os aquarelistas saem de suas casas para enfrentar sol, calor ou frio, e eu aqui, preso à minha prancheta digital. Não dá. Assim que der, vou para a rua procurar locais tão lindos quanto os que tenho visto — e tem muita coisa ao meu redor para descobrir.
Com tanta IA, sair de cima do computador vai ser bom. Sentir o cheiro da tinta e do ar puro de novo.
Esse trabalho fiz durante a pandemia para mostrar aos alunos o desenho com pincel e nanquim, o modelo é o aquarelista Ari de Goes a tela que ele segura no final é a reprodução em aquarela que fiz de um de seus quadros.
