
Em abril de 2023 fiz minha primeira experiência, ainda tímida, com o uso do ChatGPT. Eu lia e acompanhava notícias sobre a tal inteligência artificial, que naquele momento ainda era bastante incipiente. Havia muitos comentários e especulações, mas nada conclusivo sobre sua real influência no mercado.

Tenho um livro infantil publicado desde os anos 2000 (ilustração ao lado), com 19 edições até agora. Escrevi e ilustrei a história de uma menina que nasceu com acondroplasia. Na narrativa, ela parte em uma viagem espacial em busca de uma estrelinha anã, assim como ela. É uma história delicada e bonita, talvez por isso tenha resistido por tantos anos.
Entrei no ChatGPT e pedi que criasse a imagem de uma personagem com três cabeças de altura: uma menina que faz uma viagem espacial em busca de sua origem. Em poucos minutos, o sistema me apresentou três desenhos que me impressionaram. Não eram perfeitos, mas eram plenamente publicáveis. Havia pequenos ajustes a fazer aqui e ali, porém o mais assustador era a velocidade e a qualidade dos resultados, comparáveis aos meus próprios desenhos.



Imagens criadas pelo ChatGPT em segundos
Descobri então outras plataformas de geração de imagens. O Leonardo, por exemplo, oferece inúmeras possibilidades de estilo. Com ele gerei ilustrações excelentes — imagens que eu dificilmente conseguiria produzir sozinho. As opções são inúmeras: ferramentas para ilustração, som e animação surgem o tempo todo. Já é possível criar músicas a partir de descrições textuais, gerar trilhas instrumentais escolhendo os instrumentos e produzir vozes de diferentes idades e timbres para personagens. O universo criativo se expandiu de forma vertiginosa.



As imagens criadas pelo Leonardo AI. eram perfeita demais, não era o que eu queria, deixei de lado
Isso vai gerar desemprego? Em parte, sim — é difícil imaginar que não aconteça. Ferramentas de tradução automática, por exemplo, já resolvem grande parte das necessidades cotidianas. Provavelmente sobreviverão os tradutores altamente especializados, capazes de lidar com literatura complexa e obras de maior profundidade. Nas tarefas rotineiras, a automação tende a dominar.
Na área editorial, a IA já se tornou uma ferramenta poderosa. Para revisão de textos, organização de ideias e desenvolvimento de projetos, ela é extremamente útil. Com tantas possibilidades à disposição, é inevitável que as empresas editoriais repensem suas estruturas e reduzam etapas de produção.
Se antes uma editora contava com uma estrutura ampla — envolvendo editor, conselho editorial, redatores, revisores, arte-finalistas, profissionais de editoração eletrônica e diversos colaboradores — hoje parte dessas funções pode ser condensada. Em redações jornalísticas, um editor de conteúdo e alguns bons editores de arte conseguem produzir artes, infográficos e tabelas com muito mais agilidade. Ainda assim, acredito que profissionais com linguagem autoral forte, como chargistas com público fiel, continuarão encontrando seu espaço.
Na animação, já é possível produzir obras inteiras com IA. Muitas ainda carecem de ritmo e refinamento artístico, mas o custo reduzido as torna atraentes para determinados mercados. O público leigo pode aceitá-las bem, especialmente em conteúdos voltados ao entretenimento infantil.
Animação totalmente feita por IA
Não se trata de um exercício futurista, mas de observar a realidade presente. A tecnologia atual atinge diretamente o campo da criação, antes considerado exclusivamente humano. No entanto, a IA ainda não possui autonomia plena: ela não sabe, por si só, o que as pessoas desejam. Hoje, quem se destaca é quem sabe utilizá-la melhor. Um bom editor é capaz de orientar a ferramenta para produzir resultados de qualidade e otimizar a cadeia produtiva.
No meu caso, costumo fazer esboços bem-acabados e solicitar à IA a arte-final e a colorização. Isso me dá uma agilidade que nunca tive. Se eu estivesse começando minha vida profissional agora, usaria intensamente esses recursos para me tornar mais competitivo. Ignorar a IA seria correr o risco de ser atropelado por ela.


O primeiro desenho foi feito pela IA e eu acrescentei a personagem, o segundo desenho foi feito mim, e foi o que eu usei na HQ. Só que a IA fez em segundos (usei o Google AI Studio) e o que eu fiz levei umas duas horas pra fazer. Sério? Por que levar tanto tempo pra fazer algo que uma IA pode fazer pra mim?
Ainda assim, meu desenho continua sendo humano. Mesmo que não seja o melhor, é expressão pessoal — e pretendo continuar lutando por ele.
Para finalizar, conversei com a Sofia sobre o texto e a conclusão dela:
Acho o teu conceito maduro e muito lúcido, de verdade.
Você está descrevendo algo que lembra muito o que aconteceu em outras viradas tecnológicas:
- a fotografia não matou a pintura
- o cinema não matou o teatro
- o computador não matou o desenho à mão
- a internet não matou o jornalismo (ela o deslocou)
A IA entra nessa mesma linhagem: não é uma substituição total, é uma mudança de ecossistema.
O ponto mais forte do teu texto — e do teu pensamento — é este:
quem desemprega não é a IA, é quem sabe usá-la melhor
Isso é profundamente verdadeiro. A ferramenta amplia a capacidade humana, mas a intenção continua sendo humana. A IA não acorda de manhã com vontade de contar uma história. Quem quer contar a história é você.
