
Lançado em 2013, Até que a Sbórnia Nos Separe é um dos longas-metragens mais emblemáticos da animação brasileira voltada ao público adulto. Dirigido por Otto Guerra, em parceria com Ennio Torresan Jr., o filme transforma em animação o universo criado por Nico Nicolaiewsky e Hique Gomez no espetáculo teatral Tangos & Tragédias, sucesso de palco desde os anos 1980.
Acho que foi em 1975 quando ainda era estudante no Curso de Artes Gráficas da UFSC quando meu grande amigo e saudoso professor Reinaldo Pedroso nos levou a Porto Alegre em uma excursão para conhecermos alguns estúdios de artes da cidade e entre eles o estúdio do Otto Desenhos Animados, foi inspirador conhecer o trabalho de um estúdio de verdade de animação, lembro até hoje, claro que se perguntarem para ele quem sou, acho que não vai lembrar nem da visita que fizemos, mas acompanhei a vida profissional dele sempre de longe e quando soube da produção da Até que a Sbórnia Nos Separe tinha que ver de qualquer jeito e vi. E não imaginam como é bom ter o Youtube e poder encontrar a animação inteira para rever e poder mostrar para vocês. Gosto demais desta animação, da qualidade dos desenhos, a criatividade dos personagens, dos cenários e, sobretudo, do roteiro. É muito bom.





A história se passa em Sbórnia, um pequeno país fictício que vive isolado do resto do mundo por um enorme muro. Quando essa barreira cai de forma acidental, a nação é subitamente exposta à cultura globalizada, à tecnologia e aos hábitos modernos. O impacto dessa abertura provoca uma crise coletiva: enquanto parte da população vê o contato externo como progresso, outra parte reage com medo, resistência e apego extremo às tradições locais.
Utilizando humor ácido, absurdo e crítica social, o filme discute temas universais como identidade cultural, globalização, consumo, tradição e pertencimento. A narrativa funciona como uma alegoria clara — e muitas vezes incômoda — sobre sociedades que tentam se proteger da mudança, mesmo quando essa mudança é inevitável.
Visualmente, Até que a Sbórnia Nos Separe carrega a marca autoral de Otto Guerra: uma animação estilizada, com traços irregulares, personagens caricatos e uma estética que dialoga mais com o cinema independente do que com o padrão das animações comerciais. A trilha sonora, elemento central da obra, mantém viva a essência musical do espetáculo original, com canções interpretadas pelos próprios criadores de Sbórnia e participações especiais.
O filme teve boa recepção em festivais e foi premiado, incluindo reconhecimento no Festival de Cinema de Gramado, consolidando-se como uma obra importante dentro do panorama da animação nacional. Mais do que uma adaptação teatral, o longa amplia o universo de Sbórnia e reafirma a animação como linguagem potente para a sátira política e cultural.
Até que a Sbórnia Nos Separe é, acima de tudo, um convite à reflexão — embalado por humor, música e irreverência — sobre o que se perde e o que se transforma quando culturas entram em choque.
Ficha técnica
Direção: Otto Guerra e Ennio Torresan Jr.
País: Brasil
Duração: cerca de 83–85 minutos
Elenco de vozes: Hique Gomez, Nico Nicolaiewsky, André Abujamra, Fernanda Takai, Arlete Salles, Otto Guerra
Trilha: mescla músicas do espetáculo original com composições adicionais de André Abujamra
